sábado, 13 de fevereiro de 2010

DAS FLORES




Sinto muito pelas flores
que nunca lhe dei, mãe.
Guardo apenas nas asas do coração
o perfume inigualável
dos seus cabelos grisalhos.
O beijo na testa
a bênção diária
seus cuidados;
seus passos pássaros
e o extremado zelo
pelo jardim.
Rastro de astro e o espaço
do beija-flor;
o cheiro da madressilva em minha janela
e a exótica flor-estrela no alpendre,
saudando os mistérios da noite.
Perdoe-me, mãe, por te amar tanto assim...
asas do infinito preenchendo minhalmalada.
Na voragem da distância, mãe, essa saudade tem nome:
Amor.

(Eugenio Santana)

Rio, 08/09/09 – Largo da carioca.
(para Adília Santana “das flores”)

BREVE SUSSURRO DO VENTO




A renúncia, a resignação e a tolerância ante fatos e acontecimentos surpreendentes que contrariam nossos objetivos e aspirações também são, no espaço e no tempo, um Gesto de Amor.
As flores que a vida se incumbiu de esculpir em nosso rosto desfigurado, florescem como pétalas de rosas-vermelhas em nosso eu interior. Coração e alma fundem-se no mesmo regozijo.
Ao longo das vivências nos caminhos da vida, viajante no tempo, não consegui, ainda, detectar nenhum cirurgião-plástico das cicatrizes da alma e do coração.
O homem é um ser dual. A condição humana é frágil e mutante. E, maravilhosamente cósmica. Existe a polaridade intercalada de luminosidade e escuridão. Há espaços para o paradoxal. Discernimento é o ponto de mutação, o divisor de águas. O encontro de idéias, a revelação de metas.
O yin e o yang coexistem pacificamente. São imprescindíveis entre si; interligam-se, polarizam-se, completam-se em opostos ângulos.
A vastidão do mar em sua beleza transcendental nos proporciona uma aprazível sensação de quietude, paz e serenidade. Não raro, aguçamos vivamente nossos sentidos objetivos e nos comunicamos com o Ser Supremo, através da sinfonia sussurrante, mistura de sal, água, espuma, brisa, vento e maresia.
A experiência humana consiste, essencialmente, na dualidade onipresente na natureza do ser, nas coisas imutáveis e imperecíveis. Não existe perfeição e plenitude entre o céu e a terra. É necessário estarmos preparados para a aceitação dos focos de luz e do negro véu das sombras para atingirmos uma etapa mais elevada de sabedoria e amor que resulta na paz profunda.
O ser humano vive um espaço-tempo mínimo, nele questiona e absorve experiências vitais ou não... E não há regra geral de princípio, meio e fim, ao longo do aprendizado. Às vezes retrocedemos, outras avançamos na escalada da incerteza e da purificação. Ninguém, até hoje, teve convicção de tudo que nos cerca, deprime, surpreende e angustia, definitiva e verdadeiramente.
Somos, portanto, buscadores atemporais e seguidores eventuais de uma suposta felicidade plena. Alguma dúvida, sem sombra de dúvida, há de acompanhar nossos rastros no tempo em todas as estradas, até a última morada: refúgio definitivo e insofismável de cicatrizes e ossos e, depois, cinzas na dança ao vento...
Crescemos psíquica e fisicamente. Encontramos o caminho da mesma maneira que o perdemos quase inteiramente. Necessário se faz acreditar nos raios bruxuleantes da aura que envolve e une os seres, viabilizando insólitos contatos. Chegadas e partidas...
Em qualquer altiplano a nossa personalidade-alma encontra eco e obtém sinais reveladores. Impregnados da essência da realidade somos conduzidos para a mística que visualiza os fragmentos da utopia que compõem a valsa da vida, a dança ao vento, e a face silente e diáfana do "viver em harmonia na fonte da Luz", que expulsa e elimina qualquer resquício de sombra.

(Eugenio Santana, FRC.)

PÁSSAROS BRANCOS SOBRE FUNDO AZUL




Ah, quem me dera compreender as nuances das Asas do Amor. Hoje a destinação daquilo que fora traçado previamente, não condiz com aquilo que o coração pede em silenciosa linguagem e depois implora, exige, implode.
O conto não sai da gaveta impune, isento de dor, transbordando calor humano; pleno de vitalidade.
Nós criamos pedaços de vida, fragmentos de consciência e sentimentos de culpa atirados ao vento.
O poeta, o filósofo, o pensador, o artista: andarilhos do tempo, repórteres das estrelas...
Quantas formas e fórmulas de rotular, fossilizar, moldar, galvanizar, malhar, espinafrar e discriminar.
Quantas resistências frágeis tendendo a romper o último fio. Quanto conceito generalizado, preceito e filosofia falhos na malha trágica das "Leis constituídas"...
O conto não sai da gaveta e nem a gaveta libera ou liberta o conto, a gaveta sequer pode ser taxada de depositária-reacionária de algo absurdo-abstrato, conceitual, minimalista, risível ou neurofórico. Não. A gaveta, não! Caríssimos companheiros de luta: músicos, artistas plásticos, escultores, atores, poetas, cronistas; utopistas e visionários de carteirinha: definitivamente a gaveta, não!
O Amor, sim: este pavio aceso que vive de explosões, frêmitos e êxtases, este carrapato sócio-emocional que nos rouba a alma e compra à prazo gotículas e estilhaços de emoções que burilam nossa (in)capacidade (in)violável de ser (in)feliz na Dor...
Hoje, o vento varre as folhas outonais que ficaram presas às asas da memória; agarradas aos musgos do pensamento profundo, oriundo não sei de onde, não sei de quê...
Os aviões decolam. Os pássaros - livres na amplidão - alçam vôos rasantes ao despertar da manhã de setembro. Os colibris voejam ao encontro do néctar mirífico no pólen das flores.
Os garis recolhem o lixo (atômico-astronômico?) cotidiano, nas cidades cosmopolitas e consumistas de países, repúblicas, continentes.
A vida, enfim, prossegue inexorável nas asas do tempo. Os mistérios insondáveis que se ocultam por trás dos bastidores, é uma cortina de fumaça, um rio extremamente largo de profundezas duvidosas - homens da Imprensa? - uma tela em branco, um grande e indecifrável enigma...
Nossa fragilidade não permite, hoje, a conclusão de um texto rápido, um poema, enfim, um lacônico conto.
Há vôos místicos de alma e coração. Existem rosas azuis intangíveis num oásis de luz com o nome de jardim cósmico.
Uma vontade infinitamente rebelde de atravessar o grande rio, pular o muro, embora haja uma pedra de gelo adornando a almaladazul.
Por quê minhas mãos tremem e teimam em querer romper o véu e juntar-se aos desígnios que não são meus? Ah, velha e impostergável história do Karma!...
Hoje, a poeira das estradas, o olhar da janela e os gerânios que não vicejaram; santas dúvidas e interrogações, imensas incertezas.
As asas do sonho e os pés alados da esperança fincaram profundas estacas em meu coração. Tatuagem milenar impressa na alma. E a antiga e extasiante vontade de morrer sob as asas esvoaçantes de eros, cai de vez por terra.
Na asa da lembrança e no espelho do talismã da memória, quem me dera soltar PÁSSAROS BRANCOS SOBRE FUNDO AZUL e captar-lhes o suave bailado ao sabor do vento, a rota livre no ballet do vasto espaço.
Uma alma leve que voa. Agnóstico espírito inquiridor.


(Eugenio Santana, FRC.)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

VERBO-PÁSSARO




De onde nascem os poetas? Da insaciável fome do Sol!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

VÔO DE VÊNUS COM ASAS DE AFRODITE (*)


A seiva que te guia nos Mares da Beleza
Devolve na bruma-espuma cantares do Azul
Nas vagas lembranças dos olhos do Falcão à leveza
Do Vôo rompendo o mito nas asas do Vento Sul.

Sob o manto do mar azul a monumental aparição:
Surge Vênus-Afrodite e ilumina todas as faces
Infinitas luzes alcançam o poder da Criação
E nas manhãs de outono teu sonho renasce.

Arrancas de Deus um quase-sorriso sutil
Nos cantos dos olhos fragmentos de sabedoria
Revela-se na suave música, além do deserto hostil.

Na sublimação de sua Grandeza o Altíssimo suspira
Manifesta orgulho e suprema Felicidade:
Sou Grato pela invenção da Beleza – e exorcizo a ira.

(Eugenio Santana)

(*) Fonte: do livro “Crepúsculo e Aurora”, hórus/9 editora, 2006.