sábado, 31 de julho de 2010

BLUE BIRD (*)


Hoje estamos grávidos – inflados.
Estamos informatizados, coisificados, robotizados.
Não temos culpa – nascemos sob o signo da incerteza:
Geração James Dean, Elvis, Elis, Vandré, Alex Polari,
Chico Buarque, Joplin, Hendrix, Bob Marley, Lennon;
Gláuber, Pasolini, Wim Wenders, Vinícius e Drummond.
Transpomos os portais desses anos amorais
E sobrevivemos – caminhando na contramão,
Trilhando o caminho inverso – entre mortos e feridos.
Pacientes terminais e os cientistas
Que tentam inutilmente legalizar a eutanásia
E manter os mortos – vivos...
A vida e suas flores, folhas, frutos, contradições
E frustrações – continua a mesma:
Neomodernismo, miséria, impunidade, exclusão;
arrogância, oportunismo, prepotência e pose.
E nós – os restantes? Continuamos a luta vã
Sem hipocrisia. Ilesos da mediocridade. Diáfanos.
Buscamos incessantemente o amor
Que, muitas vezes, agride, dissimula, estertora, devora;
Vampiriza, surpreende e desfigura.
Hoje, afastados do que fomos
Estamos mergulhados no profundo poço
Dessa abominável realidade.
Um ano, dois, cinco, dez, cem – cem anos de decepção?
Nós os 5% por cento, estamos fraternos, visionários,
Utopistas, holísticos e planetários,
Buscando a MontanhAzul
Onde mora o Pássaro da mesma cor...

(EUGENIO SANTANA, FRC – Escritor, jornalista, poeta, publicitário e copy-desk.)

(*) Fonte: extraído do meu livro “ASAS DA UTOPIA”
Santana Edições, Brasília-DF, 1993, página 85.

VOZES DO VENTO NO DESERTO SEM OÁSIS (*)


Líderes de isopor
Mostrai o vosso amor.
Dirigentes do mundo
Cantai o amor, verbo-de-luz.
Curem as feridas, vidas falidas, excluídas e corrompidas.
Esquecei-vos da flor sintética, cibernética;
Do computador.
Olhai sim a Humana Dor.

Olhai a maioria esquecida, maltratada, discriminada;
Anônima, desempregada, torturada, beijando seus pés.
Líderes e governantes
A humanidade necessita de um brilho novo,
Uma nova face, nova identidade social,
Plena justiça e solidariedade.

(EUGENIO SANTANA, FRC – é escritor, jornalista, poeta, copy-desk e ensaísta literário. Mineiro de Paracatu está radicado no Rio de Janeiro há dois meses, e reside em Madureira.)

(*)Fonte: do meu livro "ASAS DA UTOPIA" - Santana Edições, Brasília, 1993.

domingo, 18 de julho de 2010

PREGANDO NO DESERTO...


Cada vez mais me convenço de que estamos criando pessoas fracas. Estamos diante do mundo com as novas tecnologias que são rápidas demais, você aperta um botão e resolve. No carro, você aperta um botão e o vidro sobe. O fogão não precisa mais de fósforo porque acende sozinho. O microondas esquenta em segundos a podre comida congelada; os celulares e seus atributos, recursos e componentes dispensáveis. Tudo fácil. Há, também, o “miojo” aquele alimento das mulheres de vida questionável – pseudocozinheiras preguiçosas – que preparam este alimento em três minutos.

Os pais se esforçam para dar tudo o que o jovem filho reivindica; quando não conseguem, o filho foge para as drogas. Muitos adultos, diante dos problemas, o que fazem? Vão beber. As pessoas buscam ansiolíticos e antidepressivos. É preciso chorar, sofrer, viver, experimentar. Parece que estamos anestesiando as pessoas, e por isso não encontramos a paz verdadeira.

Você precisa ter uma missão, ser construtor da paz. E o que é construir a paz? Essa paz se constrói no dia-a-dia sem perder o alvo. Isso significa que vamos passar por situações difíceis, de mágoa, ressentimento, ódio, frustração, principalmente em nossos relacionamentos. A propósito, os relacionamentos que mais nos machucam são aqueles que envolvem as pessoas com que temos maior proximidade. Uma pessoa distante de mim não me machuca, mas aquele que convive comigo me fere, dificulta minha caminhada e deixa marcas profundas e negativas. Cicatrizes na alma.
Existe uma pessoa no mundo com quem precisamos ter tolerância e paciência: nós mesmos. Se você criar um mundo ideal, um mundo de sonhos, esse mundo não existe. É alienação, fuga.

Sempre é mais fácil achar um culpado para nossos conflitos, para nossas derrotas, para nossos obstáculos, não queremos assumir que o problema está em nós, e passamos a buscar culpados. A falácia dos fracassados é aquela que tenta justificar todos os erros cometidos encontrando o erro dos outros. Por que as pessoas gostam de mostrar os erros dos outros? É para ver se desviam a atenção do seu próprio erro.

Por que o mundo aprecia tanto notícia ruim? Porque você já se acostumou com as coisas erradas do mundo. Por que o mundo gosta de revelar os defeitos e fraquezas dos outros? Existem pessoas que sentem alegria, um prazer mórbido para descobrir defeitos nos outros.
Ser inteiro, íntegro. Íntegro significa que não estou fragmentado nem por fora, nem por dentro.

A dor maior que sentimos em nossas perdas é exatamente a dor do apego. Achamos que tudo é nosso e vivemos na ilusão de que tudo depende da gente. Quando nos apegamos a coisas e pessoas, a cargos e funções, passamos a ter objetivos pequenos demais. Quando temos muita coisa para olhar e para cuidar, não olhamos o essencial, aquilo que está além do óbvio.

Cada vez mais o mundo se especializa em criar necessidades. Antigamente comprava-se o que realmente era necessário. Hoje acabamos necessitando de muita coisa. Parece que sem aquilo que foi lançado recentemente a gente é um eterno infeliz. Primeiro vem a tentação de comprar, consumir e depois trocar. Nunca estamos satisfeitos. Esse é o sutil e grande segredo da propaganda e do marketing desenfreado: demonstrar que você é infeliz e que poderá ser feliz quando adquirir esse ou aquele produto. E os publicitários arrivistas fazem isso de modo extremamente atraente, tentador. Investem-se milhões em propaganda. O governo federal parece gastar mais em propaganda do que em saúde e educação.

Você pode colocar próteses e silicone, fazer cirurgias plásticas, fazer lipoaspiração, pode fazer tudo por fora, mas não existe ainda, e jamais existirá, nenhum silicone, nenhuma cirurgia reparadora capaz de preencher um coração vazio, frio e ferido. Não resolve mudar a carcaça, porque isso apodrece.

(EUGENIO SANTANA, FRC – místico Rosacruz grau Iluminati, católico praticante e devoto de São Judas Tadeu. É escritor premiado, verse-maker, copy-desk, jornalista cultural e investigativo, adesguiano, Comendador da Ordem Ka-huna do poder mental, supervisor de RH, crítico literário, fundador da Hórus/9 Editora e consultor editorial.)

sábado, 17 de julho de 2010

HOMEM DE BRANCO (*)


Sutis nuanças.
Oníricas lembranças.
Marítimas andanças...

Lilith ameaça Afrodite
embarcadas no navio - sob forte nevoeiro
do Homem de branco.

Plebeu, andarilho, Hermes, Adônis
Orfeu, cigano, pirata, Judeu Errante?

Velho vate venerável
Bardo sensitivo
e Vidente.

Navios singram mares
Pusilânimes - os que não acenam no cais;
Medrosos - não conhecerão o sabor da Aventura
na companhia do Homem de branco - seu Albatroz
(a Dor atroz)
e a exótica-misteriosa tripulação...

(EUGENIO SANTANA, FRC – POETALADO: livros publicados,
Sócio efetivo de instituições culturais do Brasil e Portugal.
Crítico literário, jornalista e copy-desk.)

(*) Fonte: extraído do meu livro “FLORESTRELA”.
Hórus/9 Editora, Goiânia-GO, 2002, página 97.

terça-feira, 13 de julho de 2010

A VIDA É UM CÍRCULO - ONDE TUDO COMEÇA E TUDO TERMINA


Precisamos ajustar – ou mudar – nossas freqüências para ouvirmos a melhor música, a grande sinfonia que sopra de um ponto distante do Universo e apurar nossos ouvidos, pois há muita informação solta no ar.

O mundo está globalizado e interconectado. Conceitos novos modificam velhas estruturas. Máscaras caem. Muros de preconceitos desabam. O planeta está em movimento e as pessoas estão em processos infinitos de busca, onde prevalecem os desencontros. Há quebras de relacionamentos que pareciam inabaláveis. Há solidão, desespero e desistências. Mas também há muita coisa boa a ser vivida, redescoberta. É um novo tempo. E hoje, neste aqui/agora, é um bom momento para começar. Ou recomeçar.

A vida é um círculo, onde tudo começa e tudo termina. E a energia da criação é o amor, onde tudo começou e nada termina – apenas continua e compartilha todas as experiências. E o ciclo da vida anda, corre, para retornar onde tudo começou: na energia primordial.

(EUGENIO SANTANA, FRC - fragmento/copidesque - livro inédito do bardo mineiro)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

UMA MÁQUINA PARA COMPOR O TEU SORRISO


Necessitas de uma máquina
para compor o teu sorriso.
Amas o brilho corrosivo
de velhas fórmulas
sem nenhum valor.
Invertes o papel.
E o olor que fica
ainda cobiças.
Pela análise do olho
obviamente és humano.
Nem insano é o teu gesto:
projetas o modelo social falido
que te degrada e coisifica.
Aqui. Ali. Acolá.
Em Pequim ou Bagdá
não visualizas indícios
do vôo livre
do pássaro milenar...
A cada dia volatilizas
a tua essência.
Necessitas de uma máquina
Para compor o teu sorriso!

(EUGENIO SANTANA)

(*)Fonte: do meu livro “ASAS DA UTOPIA”,
Santana Edições, Brasília, DF, 1993, página 30.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

AH, MEU FILHO... (*)


Ah, meu filho!
Quantas galáxias
separam-me de ti?
Estou aqui, meu filho:
tão próximo,
tão distante!...

Então... Sorria...
Pense na magia que trazes no olhar,
Já ancorei em tuas retinas.
Lembras-te quando disseste:
- “encanto lunar”
- “oh, minha musa-lua
leal eterna namorada”...

Olhando as Estrelas
Fizeste o pedido:
- “flor celeste, ilumine meu coração
ao encontro de um novo Amor “...
Ao Astro-rei:
- “bom-dia, Sol!”
- Ao mendigo, ofereceste
Alimento e refúgio;
À criança órfã, a mão amiga;
Ao ancião, soubeste ouvir e compreender;
Ao desafeto, o perdão.

Ah, meu filho!
Estou cuidando, hoje, de ti:
Afagando teus olhos, tua alma e coração,
Beijando teu rosto desfigurado!...

Ah, meu Filho-irmão!
Tu me reconheceste em tua crônica
E crê em minha parusia
E me chamaste “Mestre-dos-Mestres”,
“Sol-do-Verbo”...
- Eu sou Jesus, Homem- do- Céu,
Teu amigo-irmão;
O Cristo Cósmico – o Perdão!

(EUGENIO SANTANA, FRC)

(*) Manaus-AM, 21/03/2007 – inédito.

quinta-feira, 8 de julho de 2010


Nódoa – mancha na alma.
Nó na garganta – profunda de desencanto.
Afônico ou microfone cortado?
Nó. Dó. Dói. Dor – coração-partido.

Há silên-cio que fala – no obelisco alado?
falo fora de combate...
nó-civo cinismo teu
nó de goteira – define tua persona.

Nó em gravata? – jamais executei
existem os lacaios que o fazem
Nó. Enforca. Sufoca. Priva. Aprisiona.
Nó: retira-se com luva de pelica.

Nó na hora exata – desata.
Enfim, liberto-me
de tuas armadilhas teatrais;
de tuas teias de tarântulas.
Sem nó – só e feliz.
Nó que desatou – Nós.
Nós? Um Vôo nas asas azuis do esquecimento!

(EUGENIO SANTANA, FRC)

Madureira Shopping – 13h18m
Rio de Janeiro, 08/7/2010 – texto inédito.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

ESTRANHO CONTATO


Não pedi teu beijo cálido
Moça de pele branca e aveludada.
Chovia.
Amanhecia.
Entre névoa e neblina
- invadindo a cidade fria –
Nós nos amamos
Como dois pretéritos amantes cúmplices.

Quisera ver apenas
O desejo oculto em tua face redonda.
Equivoquei-me – vi, isto sim:
O teu cansaço e desencanto dissimulados
E a febre na epiderme.
Em meio ao frio cortante da madrugada
Osculei teus lábios úmidos e frementes
Com um sabor estranho de rum e vinho antigo.

Sem nada exigir ou prometer – e nem poderia...
Nas ondas selvagens do corpo a corpo
Navegamos molhados em duelo de amor
E a peleja se fez êxtase indescritível
E na guerra do amor louco; côncavo e convexo;
Permitimos-nos a libido da heroína e do vilão?
De vencidos e vencedores?

Em ti depositei – inviolável célula
Pura e pulsante semente de vidávida.
Ao final do estranho contato
Senti-me um moço-velho
Que não sabia mais sorrir
Dentro de ti – insólita Lilith-Mulher!

(Eugenio Santana, FRC)

(*) Fonte: do meu livro “CREPÚSCULO E AURORA”
Hórus/9 Editora, página 86, Goiânia/GO, 2006.

RENASCIMENTO


Almalada
Cinzas pó pós-queimada
Neblina fumaça sinais
Lobeira cheiro de cachaça
Lobby e lábia

Pássaro? sinto teu vôo
Contemplo magnífico céu-altar
Absinto teus abismos
Pressinto o labirinto
Teu olhar
Libélula sobrevoando a Lua
Crisálida
silente brisa
Mar Marisa maresia hipocrisia
Onda e poesia
Navegar teu corpo – luz musa
Irisa energiza

Fênix mito?
Vôo rito
Mergulho
Renascer infinito

Redivivave – nem Eva ou Lilith
Phoenix flor do tempo
Abre as Asas Cinzas
E bombardeia o Vento!

(Eugenio Santana, FRC)

(*) fonte: do livro “FLORESTRELA”
- Hórus Nove Editora, Goiânia/GO,
Página 84, 2002.

sábado, 3 de julho de 2010

OS DESCAMINHOS DE MÁRIO (*)


Beirava meio dia e Mário está sentado no tronco, embaixo do Ipê roxo, aproveitando a sombra da árvore benfazeja – sentindo o opróbrio da barriga cheia, empanturrada do almoço farto – um ensopado de surubim, fruto da pesca no São Chico, feito no capricho pela solícita negra Terência, que o serve há mais de três lustros...

Deixa escapulir, involuntariamente, um sonoro arroto. Olha para todos os lados e diz em alto e bom som, para si mesmo: - “gases!”.

Sua casa, de frente para o largo, com duas janelas protegidas por uma tela fina e um portão lateral – um caramanchão antigo que vem pelo alpendre, mostra uma trepadeira que tem o dom de florir o ano todo.

Está de frente para a praça da Matriz, e, logo após se entrevê a barranca do grande rio. É sábado e ele não tem absolutamente nada para se ocupar, como de resto todo o populacho da cidadezinha, que àquela hora jaz escornado em camas e redes para à sesta.

A cidadezinha pára do meio dia às três da tarde, por um costume que ninguém sabe explicar de onde veio, excetuando o bar do Augusto, ali mesmo na esquina, onde uns rapazes jogam uma interminável partida de sinuca. Passou o olhar sonolento por todo o largo – nem uma vivalma – só o sol escaldante e imperdoável que tirita feio por cima do casario antigo.

Olhou atentamente a copa das mangueiras – nem uma folha mexia. “Vamos todos estorricar vivos!”, comentou monossilábico. Tinha essa mania de falar sozinho, acumulando, na bagagem, antológicos vexames públicos, até dentro da igreja, em plena missa de domingo...

Esta tarde é muito especial para ele, mas desde que amanhecera e que se olhara no espelho, sentiu alguma coisa amargando dentro de si – completava cinqüenta anos.

“Meio século, porra!”. A negra Terência arrumava a mesa do café, quando ele apareceu de pijama listrado na copa. “Felicidades para o senhor, prefeito!”, congratulou a velha serviçal. Sensibilizado pela lembrança sentou-se à mesa para o café da manhã e sentiu-se o homem mais sozinho do mundo. O chá de erva-cidreira (que ali era chamado de capim santo) adocicava todo o ar.

“Meio século!”, exclamou alto e sentiu que o bolo de aniversário tinha um gosto amargo.

Saiu de casa, por conta do calor insuportável, parou e ficou no centro do largo, dormindo em pé, quase eterno. Dali onde está agora todo o corpo escorado no tronco do Ipê roxo, dá para ver toda a extensão do rio, de uma margem à outra – uma imensa lâmina de prata ao sol. Aquela paisagem só muda nas épocas chuvosas de outubro a março, quando o rio se espraia do lado de lá e fica furioso beijando as barrancas do lado de cá.

Ouviu o chiar estridente de uma cigarra explodindo em bronquites musicais, chiou, chiou – a cigarra ajudava a esquentar mais ainda o tremeluzir do sol. Como uma onda, vinha à algazarra dos rapazes na sinuca – nesses anos teve um que quase encaçapou a bola sete e esteve a ponto de comprometer a partida que combinaram ser eterna. Não eram os mesmos de tantos anos passados, mas ninguém percebia a substituição dos jovens jogadores – as Forças Armadas colhiam a safra da turma que estava completando dezoito anos e outra turma se incorporava àquela mesa estragada, sob a vigilância do velho Augusto, que ali fora ficando mais seco, com uma toalha de rosto amarrada ao pescoço, debruçado no balcão ensebado.

“Meio século, porra!...”. A vida que poderia ter sido e que não pôde ser. Sequer um filho para celebrar sua memória alada.


Dois volumes manuscritos, trezentos e tantos poemas feitos e refeitos no ócio das horas mortas na prefeitura velha, engavetados à espera de um estímulo maior (que nunca vinha) para digitá-los e enviá-los para alguma editora famosa do Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Recife ou Porto Alegre. No íntimo achava os poemas uma futilidade, mas não tinha coragem para rasgá-los – quem sabe tinham estilo, originalidade e criatividade? Quando reservava um fim-de-semana para os longos momentos etílicos, lia-os com um outro olhar, atentamente em sua cadeira cativa do bar “Tudo Azul” – sentia-se o próprio bardo, o vate venerável, o maior poeta do mundo, faltava ser descoberto, revelado e laureado. Acrescentava anotações às margens e nas entrelinhas do caderno de capa preta, carcomido pelas asas do tempo.

Estaria ali para derrubar a poesia insossa deste país que só celebrava uns cinco poetas e a mídia impressa publicava qualquer imbecilidade que eles escrevessem! A poesia era a fórmula mágica para assassinar o tédio, a solidão, a mesmice e desendoidecer.

“O rejuvenescimento da mente do homem... a mente só é retraída quando o homem se sente frustrado, extenuado, desencantado e deprimido... carregando sobre os ombros uma indecifrável neuroforia...”.

Uma lavadeira, com uma imensa barriga, aparece saída da barranca do rio, com uma enorme trouxa na cabeça e vem vindo para atravessar o largo.

Quando amo e se amo, amo de verdade, Nuria, “meu coração soca pilão dentro do peito, vira monjolo que esmaga, soca, soca, vira munha, me esfarela, moendo os ossos... triturando as asas da alma”.

É preciso estar atento e ágil feito um gato.

“Mário, Mário, você vai para o sertão e aquilo ali vai te consumir...”. Proféticas palavras dos amigos que ainda lhe chegavam frescas nas asas da memória.

Pegou o trem do sertão até Piracanjuba, depois a jardineira velha e a poeira medonha, facão de estrada que sacudia tudo e ali aportara no fogo dos seus vinte e cinco anos. A luta para não deixar se consumir no fogo lento dos costumes do interior foi sem trégua. Resultou inútil.

Era um projeto de escritor, e se esse espécime raro não conseguia sobreviver nos grandes centros, que dizer da tentativa de construir ali esta meta no interior mais isolado e dali ganhar a admiração e o reconhecimento do mundo?

Começou por namorar a filha do fazendeiro mais rico e influente da região, João Guilherme Novaes, meteu-se até o pescoço na política, enfiou-se pelos desfiladeiros das retóricas baratas para engambelar o populacho, saiu distribuindo tapinhas nos ombros (êta, falsidade!), balinhas, "santinhos" e brinquedos 1,99 nos natais, prestou atendimento a doentes, encaminhou órfãos e meninos de ruas para o serviço social; ajudou mulheres desenganadas, se enfurnou por vilas e distritos os mais remotos levantando a bandeira da vida nova, não esta vida de merda, senhoras e senhores, porque vocês são os esquecidos do poder, "a praça é do povo como o céu é do condor" (devia ter dito urubu, pois que ali ninguém sabia o que era um Condor...), vamos acabar de vez com o fisiologismo, nepotismo e os podres poderes; precisamos de sangue novo.

O próspero fazendeiro João Guilherme Novaes se elegeu deputado estadual e Mário - o homem dos caminhos inversos - o cargo de prefeito daquela provinciana e distante cidadezinha do interior de Goiás. Uma vaga na AGL e, posteriormente, ABL, pleitearia depois. Doravante, Mário teria todo o tempo do mundo para fazer um copidesque “caprichado" de seus textos e reorganizar sua "carreira" literária...

(EUGENIO SANTANA)


- Eugenio Santana é escritor, Jornalista (DRT/GO 1319), ensaísta literário, Copidesque, Redator Publicitário. Autor de quatro livros publicados. Membro efetivo da Academia de Letras do Noroeste de Minas, cadeira nº. 2. Sócio da UBE/GO. Correio eletrônico: autor-e.santana@bol.com.br – Celulares: (21) 9346-8198 e 7177-6359

(*) Dedico este conto – no estilo de Guimarães Rosa - ao primo escritor e roteirista de filme Fernando Santana Rubinger e, principalmente, ao meu avô-materno José Ulhôa Sant’Anna, que foi proprietário da Fazenda “Aldeia de Cima”, uma das cinco maiores da Região de Paracatu, Minas Gerais. Valendo enfatizar que, foi justamente nesta Fazenda que eu nasci, com a ajuda de uma parteira, às 9h da manhã, no outono de 1956 (19/4).