quinta-feira, 30 de setembro de 2010

TEMPO DE CRISÁLIDA


É preciso transpirar uma nova realidade para poder vivenciá-la. Enquanto não nos posicionarmos e não fizermos a escolha, viveremos no mundo que não escolhemos E nem desejamos. Este é um momento de con-vocação, de re-união, de re-construção. O chamado já está sendo feito; que possamos atendê-lo e nos seja dado o privilégio de nos tornarmos a mudança que queremos ver no mundo, como nos ensinou Mahatma Gandhi.
É preciso deixar morrer. É preciso aprender a liberar o que já não é mais. Há partes de nós que resistem, apesar de obsoletas. Que certezas carregamos sem questionar? Onde estão nossas dificuldades de aceitação que não nos permitem sair do sofrimento?
Há tempo para tudo na vida. Mas é preciso deixar morrer a lagarta. A semente do que fomos e as ilusões nas quais construímos nossa visão de mundo foram uma etapa necessária da existência, mas chega o momento da transformação. Aquilo que era bom não representa mais o futuro.
A segurança não pode ser medida pela convicção, mas pela habilidade de duvidar e, mesmo assim, ser capaz de seguir em frente. A lagarta é a promessa do que podemos nos tornar; contudo, não é a experiência completa nem um fim em si mesma. É uma etapa inicial, acertadamente percorrida. A infância da vida, o desabrochar da inocência, a experimentação da realidade.
Então há o momento de deixar a lagarta morrer. Esse é o tempo da crisálida. Quando saímos das certezas aprendidas para as verdades elementares. Introjetamos a experiência e repassamos a vida pelo crivo caloroso da essência. Existe alegria, júbilo nessa vivência, pois não há nada melhor do que renascer. Nascer pode não ser uma escolha, mas renascer é fruto da consciência que acorda e deixa morrer aquilo que não vive mais.
Claro que, como qualquer das passagens da existência, tornar-se crisálida não é uma experiência isenta de tumulto. Há estertores da antiga lagarta que resiste em desaparecer, sem compreender que de fato se transforma em algo maior e melhor. A crisálida contém a lagarta, mas vai muito além dela.
Essa interiorização a que a crisálida convida é um estado reflexivo, de harmonização entre o ser e o fazer, entre o desejo e o destino. É a edificação da consciência em estado de maturidade. É, ao mesmo tempo, um estado de insensatez, de loucura, de fazer coisas inesperadas, fora do senso comum. É preciso muita maturidade para enlouquecer de forma sensata.
Loucura mesmo é permanecer lagarta. Arrastar-se por aí, sem perceber a magnificência da vida. Acordar e dormir sem perceber que o tempo entre esses dois momentos é o mais significativo. Não será em nenhum outro dia, nenhum outro momento e nenhum outro lugar. Especialmente, não precisamos ser outra pessoa para nos transformarmos. O ser que somos já basta. É preciso lembrar que a lagarta é semente e que a experiência acumulada é a matéria-prima na qual podemos construir o casulo que vai abrigar a crisálida.
É tempo de se voltar para o interior, a essência. Um momento de recolhimento das distrações do mundo. O sabático do cotidiano. Na aparência, aos olhos apenas focados no exterior, a crisálida é um casulo de morte. É o fim da lagarta e nada mais se vê. Não há beleza nem movimento, nenhum tipo de ação. É o fim de um ciclo, mas não se pode adivinhar o que virá daí. É preciso aprender a confiar no fluxo, acreditar no sábio processo da natureza, que fará revelar aquilo que pode ser.
Muitos observadores desavisados vão condenar a crisálida. Vão apontar suas deficiências, suas perdas, suas dificuldades, sua fragilidade. Contudo, não se pode confiar na impressão das outras lagartas. Cada uma delas também haverá de experimentar o mesmo processo, cada uma a seu modo, porém lagartas não estão prontas para compreender a crisálida.
O que é uma aparente deficiência pode ser, de fato, um redimensionamento da experiência de existir. O que é percebido como perda pode, na verdade, ser um desapego libertador. As dificuldades nada mais são do que a consciência em pleno exercício, percebendo mais e, portanto, experimentando coisas e situações novas. É do falsamente frágil que surge a força, o vigor, a vida.
Por falta de experimentação, o vocabulário das lagartas condena a experiência de crisálida.
A resistência se organiza, a crítica se intensifica, mas o processo não pode mais ser interrompido. Uma vez que a lagarta comece a se transformar, já não há mais volta. E é desse recolhimento, dessa autoimolação do passado que surgirão as condições para o desabrochar de uma nova experiência, mais ampla, mais rica, além de qualquer aspiração.
Da antiga lagarta se tem a experiência do corpo. Dos desafios vividos nascem as antenas da percepção. Da entrega surgem o veludo e as cores. O ser se apresenta além das restrições e, de par em par, desdobra suas asas e se permite voar para esse lugar mítico chamado felicidade.
É para lá que estamos todos fadados a seguir.

(EUGENIO SANTANA, FRC – É escritor Rosacruz; autor de livros publicados; publicitário com formação na ESPM; jornalista profissional DRT-GO 1319/JP; poeta, copy-desk e “imortal” da ALNM – Academia de Letras do Noroeste de Minas Gerais, onde ocupa a cadeira número 2.)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

VÊNUS E ADÔNIS


Brincando, certo dia, com seu filho Cupido, Vênus feriu o peito em uma de suas setas. Afastou a criança, mas a ferida era mais profunda do que pensara. Antes de curá-la, Vênus viu Adônis, e apaixonou-se por ele. Já não se interessava por seus lugares favoritos: Pafos, Cnidos e Amatos, ricos em metais. Afastava-se mesmo do céu, pois Adônis lhe era mais caro. Seguiu-o, fez-lhe companhia. Ela, que gostava de se reclinar à sombra, sem outras preocupações a não ser a de cultivar seus encantos, anda pelos bosques e pelos montes, vestida como a caçadora Diana; chama seus cães e caça lebres e cervos, ou outros animais fáceis de caçar, abstendo-se, porém, de perseguir os lobos e os ursos, recendendo ao sangue dos rebanhos. Também recomenda a Adônis que tenha cuidado com tão perigosos animais:
- Sê bravo com os tímidos. A coragem contra os corajosos não é segura. Evita expor-te ao perigo e ameaçar minha felicidade. Não ataques os animais que a natureza armou. Não aprecio tua glória ao ponto de consentir que a conquistes expondo-te assim. Tua juventude e a beleza que encanta Vênus não enternecerão os corações dos leões e dos rudes javalis. Pensa em suas terríveis garras e em sua força prodigiosa! Odeio toda a raça deles. Queres saber por quê?
E, então, contou a história de Atalanta e Hipómenes, que ela transformara em leões, para castigo da ingratidão que lhe fizeram.
Tendo feito essa advertência, Vênus subiu ao seu carro, puxado por cisnes, e partiu, através dos ares. Adônis, porém, era demasiadamente altivo para seguir tais conselhos. Os cães haviam expulsado um javali de seu covil, e o jovem lançou seu dardo, ferindo o animal de lado. A fera arrancou o dardo com os dentes e investiu contra Adônis, que virou as costas e correu; o javali, porém, alcançou-o, cravou-lhe os dentes no flanco e deixou-o moribundo na planície.
Vênus, em seu carro puxado por cisnes, ainda não chegara a Chipre, quando ouviu, cortando o ar, os gemidos de seu amado, e fez voltar para a terra os corcéis de brancas asas. Quando se aproximou e viu, do alto, o corpo sem vida de Adônis, coberto de sangue, desceu e, curvando-se sobre ele, esmurrou o peito e arrancou os cabelos. Acusando as Parcas, exclamou:
- Sua ação, porém, constituiu um triunfo parcial. A memória de meu sofrimento perdurará, e o espetáculo de tua morte e de tuas lamentações, meu Adônis, será anualmente renovado. Teu sangue será mudado numa flor; este consolo ninguém pode negar-me.
Assim falando, espalhou néctar sobre o sangue e, ao se misturarem os dois líquidos, levantaram-se bolhas, como numa lagoa quando cai a chuva, e, no espaço de uma hora, nasceu uma flor cor de sangue, como a da romã. Uma flor de vida curta, contudo.
Dizem que o vento lhe abre os botões e depois arranca e dispersa as pétalas; assim, é chamada de anêmona, ou flor-do-vento, pois o vento é a causa tanto de seu nascimento como de sua morte.

Milton faz alusão ao episódio de Vênus e Adônis, em “Comus”:

Entre arbustos de rosas e jacintos,
Muitas vezes repousa o jovem Adônis
Amortecida a dor, e a seu lado
Jaz a triste rainha dos assírios...

(Eugenio Santana é um “imortal” da ALNM – Academia de Letras do Noroeste de Minas Gerais, aonde ocupa a cadeira número 2. É detentor de 18 prêmios literários, em âmbito nacional. Livros publicados. Crítico literário. Jornalista profissional – Superintendente de Imprensa de uma instituição Municipal do Rio de Janeiro. Revisor e Copy-Desk; publicitário com curso da ESPM.)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O LEITOR


O dinheiro em si mesmo não traz felicidade, mas a falta dele pode tirá-la drasticamente. O dinheiro não enlouquece, mas o amor por ele destrói a serenidade. A ausência do dinheiro nos torna pobres, mas o mau uso dele nos torna miseráveis.
Onde estão os flexíveis? Em que espaços se encontram os que são amigos da tolerância? Onde estão os que lapidam a sua irritabilidade e ansiedade? Onde estão os que agem com brandura quando contrariados ou frustrados?
Parem com a necessidade neurótica de mudar os outros. Ninguém muda ninguém. Quem cobra demais dos outros que de si mesmo está apto para trabalhar numa financeira, mas não com os seres humanos.
Viver bem se deve mais à arte de saber perder do que de saber ganhar. Esperar muito dos outros é um barco furado.
Eu só tenho fome de conhecimento. Digeri livros. Tive acesso a uma das mais extraordinárias bibliotecas. Li dia e noite, como um asmático que procura o ar. Li mais de nove livros por mês. E quase cento e vinte por ano. Livros de poemas, filosofia, holismo, misticismo, neurociência, auto-ajuda, teologia, história, esoterismo, antropologia, sociologia, psicologia, mitologia. Li comendo, sentado, em pé, andando, correndo. Minha mente parecia uma máquina que fotografava páginas e mais páginas de conhecimento. Todo esse conhecimento me ajudou a reorganizar meu passado, restaurar minhas rotas destruídas. Tornei-me assim o ser humano que vocês vêem, um pequeno e imperfeito consultor de idéias; um ínfimo fragmento da Biblioteca de Alexandria.

(EUGENIO SANTANA, FRC – é Superintendente de Imprensa de um órgão municipal do estado do Rio de Janeiro; jornalista profissional desde 2002; Escritor, poeta, copidesque e crítico literário; quatro livros publicados; membro efetivo da ALNM – Academia de Letras do Noroeste de Minas – cadeira número 2; Sócio da UBE-GO/SC; Colaborador do Greenpeace; Colaborador da ADESG-DF. Dezoito prêmios literários, em âmbito nacional.)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

SACRIFÍCIO


Sacrifico-te e ofereço-te
o meu amor.
Misteriosa pérola
no fundo profundo
oceano de nossas vidas.

Viver é partilhar o amor ágape-eros.
Diamante azul lapidado na epiderme
Química do beijo - do corpo e da alma.

Ainda que efêmero
use o rubi-talismã
no ritual do coração de romã.
Não é anônimo
não é invisível - não é risível
não é clandestino o nosso amor.
Karma - dharma, destino ou...
almas-irmãs?!

Dor do amor
que imprime sua identidade.
Dor de parto - lábios fartos.
Não parto para uma viagem
sem teus molhados beijos.
Um pacto com o silêncio
sinto convidativos odores,
no azul do lençol, oh, dores!

Murmúrios, urros, gemidos.
Uivos lascivos, lancinantes.
O luar de outono fascinante
desenha em nossa pele
a tatuagem pluriamar.

O amor e o grito
Rio frenético e dionisíaco
de águas calmo-turbulentas.
O paroxismo e o êxtase
o frêmito-frenesi - a volúpia.
A visão da rosa - lírio lilás.

No cavalgar deste rito inicial
não evito - não hesito
não é mito, não é profano
apenas me ufano
infinito sentimento.

(Eugenio Santana, FRC)

(*)Fonte: extraído do meu livro "Crepúsculo e Aurora"
Hórus/9 Editora, Goiânia-GO, 2006, página 81)

OS PÉS ALADOS DE HERMES-MERCURYO


Aladalma - oniricasasa
diáfano corpo
de passadas vidas.

Pétala singular que volátil voa
(e as flores são borboletas que não podem voar...)
Indescritível perfume invade o ar
Rosazul - flor-do-tempo
Flor-estrela.

Eis-me aqui, sóror Literatura
Andarilho cósmico
Humilde neófito - franciscano servo
para te amar!

Bendita sejas
Oh, minhamada imortal
Sempiterna N.S. POESIA!

(Eugenio Santana, FRC)

(*) extraído do meu livro "Crepúsculo e Aurora"
Hórus/9 Editora, Goiânia-GO, 2006, página 79.)

A ÁRVORE DA SERRA


- As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

- Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minha alma!...

- Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa:
"Não mate a árvore, pai, para que eu viva!"
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!

(Augusto dos Anjos veio da Paraíba para o Rio de Janeiro em 1910.
Com 26 anos, recém-casado, pensava conseguir na capital do Brasil
um meio de subsistência compatível com a cultura e o talento que
possuía. Não teve êxito e sua desilusão seria ainda maior: não
encontrou nem mesmo quem lhe apreciasse o estro.)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

OBSTINAÇÃO, SIM - TEIMOSIA NÃO!


Você vai encontrá-lo no manual nacional das espécies raras. Mas ele é raro.
Assim como o mico-leão-dourado, a arara-azul e o tamanduá-bandeira, os obstinados raramente são vistos em nossa paisagem. Aparições ocasionais, contudo, têm sido reportadas em campus de faculdades, escritórios e fábricas, olhando com cuidado você encontrará até mesmo dentro de sua casa. Na verdade, apesar de suas aparições serem esporádicas, os obstinados formam a coluna vertebral de qualquer coisa que façam parte. Uma das razões de ser tão difícil de localizá-los é que nunca andam em bandos. São solitários.
O obstinado é alguém que aspira se sobressair, ser diferente. Um obstinado está comprometido com a essência – completa e inequivocadamente. Suas raízes de dedicação resultam em ricos frutos de determinação, excelência e conquistas. Estabelecendo altos ideais, os obstinados se dirigem diretamente para o alvo, absortos na paixão pela qualidade – conseguida a quase qualquer preço.
É preciso ter coragem para suportar, persistir, não abandonar o que foi começado. A obstinação é uma das mais raras formas de coragem. Quando fazemos um plano e o levamos à frente com persistência, mesmo diante de desapontamentos e dificuldades inesperadas, estamos desenvolvendo a qualidade de coragem.
O sucesso não ocorre da noite para o dia. É o resultado de anos de trabalho árduo, de altos e baixos, de terríveis momentos de incerteza.
Vemos pessoas cujo sucesso parece fruto da boa sorte, mas raramente isso é verdade. Por exemplo, Fred Smith, fundador da Federal Express, é uma dessas pessoas. Ele teve a idéia de fundar uma empresa que entregasse encomendas em vinte e quatro horas, em todo o mundo, quando ainda estudava em uma das melhores escolas dos Estados Unidos. Seus professores, alguns dos maiores talentos nessa área, deram uma nota baixa ao trabalho que ele escreveu sobre isso, dizendo-lhe que era uma idéia ridícula, porque já havia o correio que prestava esse serviço.
Imperturbável, Fred gastou todo o dinheiro que tinha para montar seu negócio. Estabelecendo como meta entregar cento e sessenta e sete pacotes no primeiro dia, mas entregou apenas dois. Não viu isso como fracasso. Sabia que, se pudera mandar dois pacotes sem nenhum problema, poderia mandar muito mais. Estava certo. Hoje a FedEx é um negócio de um bilhão de dólares, e a renda pessoal de Fred é de cinqüenta milhões de dólares por ano.
A escritora Joanna Rowling, autora de Harry Potter, também perseverou, vencendo as dificuldades. Quando escreveu o primeiro livro, criava a filha pequena sozinha, e sua única fonte de renda era uma pensão do governo. Escreveu o livro à mão, sentada à mesa de um café, com a filhinha dormindo no carrinho ao seu lado. Depois de muitos meses, quando terminou de escrever a história, enviou o manuscrito a um agente que a rejeitou, alegando que era muito comprida para crianças. Joanna não mudou a história, apenas mandou-a para outro agente, que a adorou.
O livro se tornou um fenômeno, amado por crianças do mundo todo, e mudou o conceito a respeito de histórias infantis. Os direitos autorais do filme foram vendidos para Hollywood por um milhão de libras. A escritora Joanna está entre as mulheres mais ricas da Grã-Bretanha.
Nelson Mandela passou trinta anos na prisão por lutar pelos direitos dos negros sul-africanos. Durante muitos desses anos mantiveram-no em horríveis condições e diziam-lhe que não havia esperança de libertação para ele. No entanto ele conservou a coragem, a sabedoria e o otimismo. Quando finalmente foi posto em liberdade, saiu da prisão com notável dignidade. Tornou-se presidente da África do Sul e é uma figura amada e respeitada em todo o mundo.
Um dos princípios básicos da obstinação é saber quando deixar de perseverar. Não exagere. Talvez você não deseje renunciar a uma idéia ou a um projeto quando as circunstâncias assinalam que deve fazê-lo. Uma pessoa pode ser inteiramente firme e sincera nas suas convicções e, ao mesmo tempo, estar completamente equivocada. O tempo lhe dará a resposta, já que ele é o único fator que pode lhe indicar se deve ou não renunciar. Se já acabou o tempo que você impôs para conseguir alguns resultados importantes e tangíveis e não teve nenhuma recompensa por seus esforços, terá de reavaliar a situação. Esteja disposto a abandonar um projeto inútil; mas antes verifique o que é que está mal. Determine se o seu projeto vale ou não a pena. Não existe maior perda de tempo do que percorrer um caminho que não leva a lugar nenhum. O tempo é seu bem mais precioso. Você pode recuperar um dinheiro perdido, encontrar um velho amigo, levantar um negócio que faliu, saber como fazer voltar a saúde perdida, mas o tempo que se desperdiça foi perdido para sempre. Persevere quando valha a pena e esqueça-se do seu projeto quando se tornar inútil segui-lo. Só os fatos, sua experiência, seus instintos e seu próprio juízo podem decidir se você pode continuar.
Se o seu barco está afundando sem nada que você possa fazer, abandone-o. Algum dia terá outro.
Eu não posso lhe dizer quando deve continuar ou quando deve modificar os seus planos, nem quando deve abandonar o seu projeto para sempre. Só você pode determinar através de análise periódica. Se suas metas são as que realmente busca, se seus planos e ações obtêm recompensas, persevere até atingir o que tanto procura.
Obstinação sim, teimosia nunca!

(Eugenio Santana – Copy-Desk/Fragmento.)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

VÔOS E MIRAÇÕES - O PÁSSARO ORIGINAL


As condições de um pássaro solitário são cinco:
Primeiro, que ele voe ao ponto mais alto;
Segundo, que não anseie por companhia, nem a
De sua própria espécie;
Terceiro, que dirija seu bico para os céus;
Quarto, que não tenha uma cor definida;
Quinto, que tenha um canto muito suave.

O medo e a ousadia se equilibram. Ousadia, quando saímos a campo aberto para caçar o Poder. Medo, quando a posição se inverte e somos por ele caçados.
Um pássaro original é, necessariamente, um pássaro solitário, posto que carece até da companhia dos de sua espécie. E das alturas máximas, onde vive, não teme enxergar as coisas por prisma, até então, desconhecido. E canta suave, agradecendo ao Poder que o sustenta em sua originalidade. A ausência de cor definida serve para se manter incógnito. Como arauto do Poder, à semelhança dos animais mágicos sem rotina, ele só aparece aos demais seres como um presságio, um emissário.
A última condição, dirigir o bico para os céus, eu compreendia muito bem. Quando me transformara em um condor, esse preceito se revelara para mim, possuído de lógica irretorquível. Mas seria necessário tornar à condição de pássaro para explicar isso.
A viagem no Daime, rumo às raízes perdidas da condição humana e da criação do Universo, nos fazia pássaros originais. Ora em bandos, ora sozinhos, decifrando, em cada coisa viva, os sinais de tempos muito remotos, quando a chave do mistério era muito mais clara.
Tudo isso era muito fascinante, mas, igualmente, muito penoso. Pois, como diria D. Juan:
“A arte de ser um guerreiro é equilibrar o terror de ser homem com a maravilha de ser homem.”
O ser que habitava no Daime, e que servia do nosso corpo e da nossa mente para se revelar, expunha, a cada passo, a nossa fragilidade e a nossa força, a ambigüidade dessa condição oscilante.
Como que saído de um transe, abandonei minhas reflexões. Um imenso gavião levantou vôo de um pinheiro. Era um pássaro original e solitário, que viera ali confirmar tudo.
Com esse espírito, me senti animado a continuar o meu caminho. E o meu Diário. Nele, ia anotando os acontecimentos mais significativos, em cada sessão de trabalho.

(Eugenio Santana, FRC – copy-desk/fragmento.)