domingo, 25 de setembro de 2011

EU ME ARREPENDO DA MINHA FALA, NUNCA DO MEU SILÊNCO




É BEM VERDADE QUE RARAMENTE A OLHAMOS NO ESPELHO. Nunca paramos para pensar na beleza da língua. Muito menos marcamos um horário com um esteticista especializado em línguas.

NÃO COMPRAMOS COSMÉTICOS PARA EMBELEZÁ-LA. Nem vamos à academia por causa dela e não fazemos regime para colocá-la em forma. Ninguém fica observando. Assobiando ou sorrindo para línguas e muito menos escrevendo poemas sobre elas. Tampouco a língua é assunto dos artigos de capa das revistas especializadas em beleza.

Apesar disso tudo, é a língua que determinará se somos ou não pessoas belas. Ela fala muito mais alto do que o formato do nosso rosto, as medidas do nosso corpo, a força física que possuímos, a quantidade de peças que temos no guarda-roupa, o quanto ganhamos ou a importância do cargo que ocupamos na empresa.

MAS A LÍNGUA É TÃO VOLÁTIL QUANTO VITAL. Washington Irving foi o primeiro a dizer: "Uma língua afiada é o único instrumento de corte que se torna mais afiado com o uso permanente." Tiago, meio-irmão do Mestre Jesus, foi o primeiro a alertar: "A língua é um fogo... É um mal incontrolável, cheio de veneno mortífero."
MORTE VERBAL. Um letal e brilhante míssil que ataca com poder infernal, aniquilando e destruindo a vontade.

E NÃO SE PARECE NEM UM POUCO COM A FERA BRUTAL QUE É. Habitualmente escondida atrás dos portões de marfim, seus movimentos são intrigantes. Ela pode enrolar-se para um assobio camarada ou convidar um preguiçoso bocejo à tarde. Sem nenhuma dificuldade consegue retirar restos de pipoca entre os nossos dentes ou segurar um termômetro. É trapaceira! Pode ajudar a saborear uma bala super forte de hortelã, já que vira um lado para o outro sem se queimar nenhuma vez. Momentos depois ela segue as ordens de um trompetista, permitindo que toque "o vôo do besouro" sem um único erro.

MAS, CUIDADO! É só o dedão ser acertado por um martelo, ou seu dedinho preso pela cadeira, que essa criatura escorregadia que fica em sua boca subitamente mostrará o lado violento de sua natureza. Ela desafia a domesticação. Incrível! Nós podemos adestrar golfinhos, baleias e cães. Podemos treinar falcões para pousar em nossos jornais, elefantes para se equilibrar sobre barris, tigres para sentar em tamboretes e jacarés para se virarem e terem as suas barrigas acariciadas. Mas a língua? É impossível ser treinada!

MUITOS OFERECERAM CONSELHOS sobre como evitar os transtornos causados pela irascível língua. Publius, um filósofo grego, nos aponta uma excelente técnica que tendemos a esquecer. O silêncio, diz Publius: "Eu me arrependo freqüentemente da minha fala, nunca do meu silêncio."

A FORMA COMO A UTILIZAMOS é que determinará, em grande parte, a reputação que teremos. Isso porque aquilo que dizemos deixa uma impressão permanente a nosso respeito, ou seja, rotula nosso caráter. As palavras que proferimos, muito mais do que a aparência que temos, revelam quem verdadeiramente somos.

PENSE PRIMEIRO. Antes de movimentar seus lábios, pare por dez segundos e mentalize suas palavras. Elas são precisas ou exageradas? Gentis ou cortantes? Necessárias ou supérfluas? Benéficas ou más? De gratidão ou de lamúrias?

FALE MENOS. Suas chances de estragar tudo são diretamente proporcionais à quantidade de tempo que você gastar com sua boca aberta. Tente fechá-la um pouco. Faladores compulsivos encontram dificuldades em manter amigos. Eles são irritantes. Então conserve sua energia verbal!

(*) Eugenio Santana, Jornalista e Escritor. Membro da ALNM – Academia de Letras do Noroeste de Minas, cadeira nº 2. Sócio da UBE-GO/SC – União Brasileira de Escritores, seção Goiânia e Florianópolis, respectivamente. Ex-Superintendente de Imprensa no Rio de Janeiro/RJ. Articulista do jornal “Diário da Manhã”.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

GUERREIRO-SOL, MULHER-LUA




Ele, guerreiro, cavalgava um cavalo negro. Seus olhos eram serenos, seu rosto triste, seus cabelos dourados como a luz do sol, e sua voz só se ouvia depois de longos silêncios.

Ela, diáfana como a lua, cabelos loiros e voz suave e volátil como a luz das estrelas.

Eles muito se amavam.

Mas havia naquela terra um feiticeiro das trevas. Ele se apaixonou pela moça-lua. Mas ela amava o guerreiro e repeliu os gestos do bruxo. Este, irascível, lançou sobre os namorados um feitiço: estariam condenados, pelo resto dos seus dias, a nunca se tocar. A mulher seria como a lua. Só apareceria à noite, depois de o sol se pôr: Durante o dia ela seria um falcão branco. E seu amado seria como o sol: só apareceria durante o dia. Durante a noite ele seria um lobo negro.

E assim aconteceu. Durante o dia o guerreiro cavalgava o seu cavalo, levando no ombro sua amada, o falcão branco. Durante a noite o falcão voltava a ser mulher e ficava ao lado do seu amado, o lobo negro.

Mas havia um breve momento encantado, quando eles quase se tocavam. Ao crepúsculo, quando a luz do dia se misturava com o escuro da noite, o falcão voltava a ser mulher e o guerreiro se transformava em lobo. Ao nascer do sol, quando o escuro da noite se misturava com a luz do dia, o lobo voltava a ser guerreiro e a mulher se transformava em falcão. Nesse brevíssimo momento, os dois apareciam um para o outro como sempre haviam sido... Suas mãos se estendiam, uma querendo tocar a outra – mas o toque era impossível, porque, antes que suas mãos se tocassem, a metamorfose ocorria.

O guerreiro amava o falcão. Sabia que dentro do falcão vivia sua amada, encantada. Ele acariciava suas penas – mas um falcão não é uma mulher. Ele o carregava movido pela esperança de que, um dia, o feitiço fosse quebrado.

A mulher amava o lobo. Sabia que dentro do lobo vivia, encantado, o guerreiro de olhos profundos que ela amava. Ela acariciava seu pêlo negro – mas um lobo não é um homem. Ela o acariciava movida pela esperança de que, um dia, o feitiço fosse quebrado.

Mas o amor é mais forte que os feitiços maus. E aconteceu que, um dia, depois de uma luta sangrenta, o feiticeiro foi morto e o feitiço foi quebrado. O guerreiro voltou a ser o guerreiro que sempre fora, e a mulher voltou a ser a mulher que sempre fora. E as suas mãos puderam se tocar e tudo foi alegria e eles se casaram e viveram felizes para sempre...

(copy-desk by EUGENIO SANTANA, FRC - Escritor laureado e autor de livros publicados; jornalista profissional de mídia impressa; poeta, publicitário e editor. Membro efetivo da Academia de Letras do Noroeste de Minas (ALNM), cadeira número dois; sócio efetivo da UBE/SC-GO – União Brasileira de Escritores. Escrevo e publico a partir dos 16 anos de idade, com um só propósito: transmitir VERBO DE LUZ que possa acrescentar algo na vida dos meus leitores. Busco a Transcendência através da Literatura em seus variados gêneros. Escrever é minha Missão.)

ESTES, SIM, SÃO MEUS FILHOS...





Li com interesse e encantamento os poemas de tão fina sensibilidade no livro “Asas da Utopia”. Desejo-lhe o merecido sucesso literário. (Fernando Sabino, Rio de Janeiro, RJ)

Sua poesia possui originalidade. É súbita, expressiva, cortante, contundente e terna. É bom encontrar poeta com linguagem própria. (Artur da Távola, Rio de Janeiro, RJ)

Muito grata pela visita de “Florestrela”. Não há dúvida que o Poeta mergulha, coração lírico, na percepção da Unidade de todas as coisas. Alta conquista. Mágico mistério. Insígnia de quem possui a tatuagem da flor de Lótus impressa na alma. (Stella Leonardos - Rio de Janeiro, RJ)

A atmosfera do livro “Asas da Utopia” é de amor e espiritualidade. As metáforas são flores que atenuam e alimentam a esperança de dias mais claros. (Helena Kolody, Curitiba, PR)

Foi um prazer conhecer esse arquiteto da Palavra. Segue sua senda Eugenio Santana, viajor incansável de trilhas inimagináveis. Continue semeando Beleza, nesse mundo desfigurado de humanidade e fraterno afeto aos seres, coisas e ao Eterno. (Augusta Faro, Goiânia, GO)

Eugenio Santana é um Chefe da Oficina da Consciência. Ele escreve com a mesma intensidade com que medita no Cosmo ou, inspirado pelas Asas da Lembrança, navega no tempo Eterno. (Carlos Cardoso Aveline, Brasília, DF)

O escritor Eugenio Santana é um Buscador da Luz, e sabe, como já sabia Confúcio, que o homem permanece pela palavra. O seu livro “Florestrela” é um sobrevivente dos escombros de um mundo absurdo e caduco, qual o peixe Celacanto. (Brasigóis Felício, Goiânia, GO)

Eugenio Santana se coloca entre os que procuram canalizar a sua busca por meio da forma poemática. O ponto de chegada será o mesmo: a realização da Utopia, que havemos de encontrar/construir, ainda que para tanto precisemos repartir com o poeta a cruz de seu destino crístico – o destino do homem? (Anderson Braga Horta, Brasília, DF)

“Guiado pelos Pássaros” é o título do livro de nosso amigo, o escritor Eugenio Santana. Há uma busca incessante de fusão com a natureza, com a harmonia do Uni/verso. Poetas-Pássaros: Castro Alves era o Condor. Poe, o Corvo. Manoel de Barros, o sabiá com trevas. E Eugenio Santana? O Falcão real? O rouxinol? O pintassilgo? Ou um homem que segue o roteiro dos pássaros? (Raquel Naveira, Campo Grande, MS)

sábado, 10 de setembro de 2011

BAUDELAIRE: CONSIDERADO O CRIADOR DA LÍRICA MODERNA




Charles-Pierre Baudelaire nasceu em Paris, a 9 de abril de 1821, e faleceu na mesma cidade, a 31 de agosto de 1867. Desde muito jovem demonstrou possuir um temperamento inquieto e rebelde, que lhe valeu a expulsão de um dos colégios em que estudou. Em razão de seu comportamento boêmio foi enviado pelo padrasto, em 1841, à Índia. Viagem que não foi concluída, pois o jovem poeta conseguiu retornar à França antes de chegar ao seu destino.

Ao atingir a maioridade, em 1842, Baudelaire recebeu a herança paterna e passou a levar uma vida desregrada fortemente associada ao álcool e às drogas. Data desse período o início de seu rumoroso relacionamento com Jeanne Duval, a mais famosa e importante de suas amantes, que lhe inspirou muitos dos seus mais belos poemas amorosos.

Com seu estilo de vida, Baudelaire dilapidou rapidamente a herança paterna, o que fez com que a sua mãe o acusasse judicialmente de pródigo e conseguisse a nomeação de um tutor para administrar seus bens. O poeta manteve até a morte uma relação tensa e conflituosa com esse administrador de suas rendas.

Em 1857, foi lançado seu livro de poesia mais famoso, “As Flores do Mal”, que produziu enorme escândalo na França. Novamente Baudelaire foi processado e obrigado a pagar, junto com os editores, uma pesada multa. A acusação feita era de ataque violento à moral. Outros livros importantes de Baudelaire são “Os Paraísos Artificiais” (1860) e “Os Pequenos Poemas em Prosa (1868), depois intitulado “Spleen de Paris” (1869).

Paralelamente a sua produção poética, Baudelaire foi também crítico de arte e tradutor. Destaque para seu trabalho relacionado à obra do escritor estadunidense Edgar Allan Poe, que exerceu forte influência sobre suas concepções.

Baudelaire foi considerado pela crítica literária o fundador da lírica moderna, pois sua obra incorporou, como nenhuma outra poesia produzida até então, os elementos considerados, em princípio, como não-poéticos. Ele assimilou elementos pouco ortodoxos para entender, por meio de seus escritos, as enormes contradições que estão na base da vida moderna, cujo epicentro, no século 19, era Paris.

A MUSA VENAL


Ó musa de minha alma, amante dos palácios,
Terás, quando janeiro desatar os ventos,
No tédio negro dos crepúsculos nevoentos,
Uma brasa que esquente os teus dois pés violáceos?

Aquecerás teus níveos ombros sonolentos
Na luz noturna que os perigos deixam coar?
Sem um níquel na bola e seco o paladar,
Colherás o ouro dos cerúleos firmamentos?

Tens que, para ganhar o pão de cada dia,
Esse turíbulo agitar na sacristia,
Entoar esses Te Deum que nada têm de novo,

Ou, bufão em jejum, exibir teus encantos
E teu riso molhado de invisíveis prantos
Para desopilar o fígado do povo.

(Por Eugenio Santana – Escritor, Jornalista e Ensaísta literário. Autor de livros publicados. Integrante de mais de 30 instituições culturais do Brasil e de Portugal. Ex-Superintendente de Imprensa no Rio de Janeiro.)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

NEVERMORE: TRANSCENDÊNCIA DO VERBO NAS ASAS DA PERMANÊNCIA




Por que razão o ser humano é levado a tomar da pena e do papel (ou de seus substitutos contemporâneos) e realizar a atividade aparentemente gratuita e inútil que é escrever um poema? Em outras palavras, que necessidade visceral é essa que leva o homem a extrair de si um produto que não tem nenhuma função prática para sua sobrevivência, a exercer a difícil e pouco apreciada atividade de criar poesia com palavras? Entre os homens que exerceram a faculdade da criação poética em verso e prosa e que pagaram por ela o preço da incompreensão e do ostracismo, destaca-se o estadunidense Edgar Allan Poe (1809-1849).

Poe obviamente entendia as profundezas dessa necessidade tão inexplicável. Talvez percebesse que o homem faz poesia para melhor entender a si e ao mundo em que vive. Ou para fantasiar outros modos de existência que não o seu, outras realidades para além desta, insatisfatória, com a qual tem de haver-se. Ou para atenuar sua sensação de impotência em relação à natureza, que lhe é indiferente. Ou ainda, como diria o crítico de arte Étienne Souriau (1892-1979), “para ensinar aos deuses como é que se cria”.

O verdadeiro poeta não usa a palavra apenas para representar os elementos da realidade empírica; ele instaura o representado, como imagem e som, às sensações do seu receptor. Quando o poeta enuncia, sua palavra forja e ressignifica a realidade à sua vontade. E Allan Poe era um mestre desse processo criativo.

Seu poema “O Corvo” é um dos mais comentados do mundo como exemplo de microcosmo estético perfeitamente acabado, de composição ao mesmo tempo cerebral e inspirada, na qual a vida e a morte encontram-se intensamente presentes e igualmente misteriosas.

O poema conta uma história fantástica: a de um rapaz que está lendo em seu quarto, na tentativa de esquecer a morte recente da amada, quando, de repente, é perturbado pelo som de uma batida à janela. Ao abri-la, ele nada mais vê além da treva noturna e volta ao quarto. Mas novamente ouve a batida e volta a abrir a janela. Nisso, entra-lhe um agourento corvo pelo recinto e vai pousar num busto de Palas que está em cima da porta.

Então o rapaz tem a idéia de perguntar o nome ao corvo, que lhe responde: “Nevermore” – Nunca mais. A princípio, o rapaz se ri do papaguear sem sentido da ave. Mas, aos poucos, movido por sua dor, dá seguimento ao diálogo, num jogo de ecos: passa a formular perguntas que, num crescendo de agonia, exprimem as dúvidas que tem na alma – se ele algum dia será capaz de esquecer a amada e se virá a vê-la uma vez mais.

A tudo isso a profética ave sempre responde monocordicamente: “Nunca mais”. Exaltado, então, o herói ordena-lhe que desapareça. Mas o corvo volta a responder “nunca mais” e lá permanece pousado, assombrando para sempre o desiludido rapaz.

Contar uma história é fácil. Para construir uma história, basta seguirmos os preceitos formulados, já nos anos 300 a.C. por Aristóteles: configurar uma situação, uma complicação e uma resolução. Mas contar bem uma boa história e carregá-la de poesia já é mais difícil.

A sinopse acima não corresponde, nem de longe, a “O Corvo” de Poe. Ela não constrói paulatinamente o suspense claustrofóbico do poema, os sons encantatórios e hipnóticos que sustentam a obsessão do amante masoquista. Ela não prende o leitor, como o corvo prende a personagem, no círculo da atemporalidade em que o homem se debate com sua impotência diante da morte. Seu ritmo não faz acelerar o batimento de um coração angustiado, como ocorre na caixinha de ressonâncias que é o comovente poema de Poe. Nessa sinopse, o som e o sentido não se conjugam para levar a palavra a ultrapassar sua mera referencialidade e criar no leitor a emoção pretendida – a mesma do amante torturado pela lembrança sem fim do amor ausente.

(copydesk/fragment by Eugenio Santana – Escritor, jornalista e ensaísta. Ex-superintendente de Imprensa no Rio de Janeiro.)

O RETRATO DE DORIAN GRAY: OSCAR WILDE PINTOU COM PALAVRAS UM MAGISTRAL QUADRO DA DECADÊNCIA MORAL HUMANA




Filho de William Wilde, médico de renome, e de Jane Francesca Elgee, escritora e intelectual, ativa militante do movimento para a Independência da Irlanda, desde cedo o irlandês demonstrou seu gênio. Aluno brilhante, ganhou vários prêmios por seu destacado desempenho escolar em renomadas instituições de ensino. Sobressaia-se dos demais estudantes tanto por seu temperamento forte e anticonvencional, como também por sua refinada inteligência.

De 1879 a 1889 concentrou a maior parte de sua produção em textos teatrais e poemas que alcançaram relativo sucesso. Versátil e de talento pluralista, publicou também um volume de contos de fadas, “O Príncipe Feliz e Outras Histórias” (1888), e um ensaio intitulado “A Alma do Homem sob o Socialismo” (1891). Em 1890 saiu a primeira versão daquele que seria seu único romance, “O Retrato de Dorian Gray”. Com a edição revisada, de 1891, o livro alcançou notável repercussão, sendo até hoje a obra mais conhecida de Wilde.

“O Retrato de Dorian Gray” parece prenunciar o drama pessoal vivido por seu autor. Há uma tensão evidente na relação que une o belo jovem Dorian, Basílio Hallward (o pintor do retrato), e Lorde Henry Wotton, principais personagens da obra. Essa tensão se desenvolve a partir do fascínio que Dorian exerce sobre seus amigos, trazendo subjacente uma sutil atração homoerótica.

O pintor, de temperamento reservado e austero, vê na beleza cândida de Dorian a personificação de seu ideal artístico, identificando a perfeição de seus traços físicos com a pureza de sua alma. Já Lorde Henry é o alter ego de Wilde, e com sedutora loquacidade expressa sua expectativa em relação a Dorian:

“Viva! Viva a maravilhosa vida sua! Busque sempre novas sensações. Que nada o atemorize... um novo hedonismo – é disto que precisa o nosso século... todos nós nos convertemos em horrorosos fantoches, alucinados pela lembrança das paixões de que tivemos demasiado temor, e das esquisitas tentações a que não tivemos coragem de ceder. Juventude! Não há absolutamente nada no mundo, senão a juventude.”

“O Retrato de Dorian Gray” permanece como uma das grandes obras-primas da literatura universal. O livro foi publicado no Brasil por várias editoras, entre elas, a Nova Cultural (1993). Intrigante e de uma moralidade dúbia, como seu controverso autor, que terminou seus dias de forma melancólica.

(copydesk/fragment by Eugenio Santana – Escritor, jornalista, ensaísta. Ex-Superintendente de Imprensa no Rio de Janeiro.)

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A PAIXÃO NAUFRAGA NO OCEANO DO CORAÇÃO E O AMOR IMPLODE SENSATEZ E RAZÃO




Se o entendimento do que é mística provoca tanta controvérsia, já a experiência mística é mais freqüente do que supomos. É o desdobramento do ego, o sair de si, o deixar-se possuir pelo outro, o descentrar-se para encontrar o centro no próximo. É a paixão amorosa, o sentir-se irresistivelmente atraído para fora de si mesmo. Alguém faz convergir em sua direção todas as energias do apaixonado, de tal modo que este se deixa impregnar pelo objeto de sua paixão, ainda que não possa vê-lo, ouvi-lo ou tocá-lo. O apaixonado sente-se arrebatado, admite que o âmago de seu ser esteja indelevelmente marcado por aquele outro que não é ele e, no entanto, o faz reviver “fora do corpo”. Isso é o amor. É experiência mística.

O amor apaixonado não decorre da razão. Subverte-a. é enlouquecedor, transcende o raciocínio, a lógica, o discurso conceitualmente articulado dos “bons propósitos”. A razão naufraga nas vagas intempestivas do coração. A afeição implode a sensatez do pensamento. Dentro do corpo o amado sente-se “fora do corpo”. O objeto da paixão (transcendência) irrompe em meu ser (imanência) e resgata-me pelo lado avesso do ser (profundência).

Outra expressão da mística é a arte. Só há verdadeira arte quando se consegue estar “fora do corpo”. No balé os movimentos do corpo são a forma alada de expressar algo intangível, cujo desenho é pincelado pela música e transcende a seqüência dos gestos da bailarina. Não se dança com a cabeça nem com os membros. Dança-se com a alma, numa entrega de si ao ritmo e à melodia que só vibra com densidade artística quando se está “fora do corpo”.

O mesmo ocorre em todas as outras expressões de arte. Mas falemos da que me é mais próxima: a literatura. Não se escreve ficção com a cabeça. Escreve-se com o ser, extraindo do mistério pessoal a narrativa que nos espelha o espírito. Essa narrativa é “fora do corpo”, imponderável e, no entanto, é a Palavra que biblicamente organiza o caos e cria o ser. E essa Palavra vem de “fora do corpo” e vai para “fora do corpo”.

Talvez isso explique um dos fenômenos mais inquietantes da pós-modernidade: a morte da estética. Pois se a modernidade arrancou do palco a fé a substituiu pela razão, a pós-modernidade despreza a razão para idolatrar o corpo. O que importa agora é a “estética” do corpo. É a beleza.

Essa corporalização da estética faz definhar o espírito e opera a inversão de Narciso. Narciso contemplava-se porque era belo. Na inversão não há beleza, há um padrão de formas que suplica reconhecimento aos olhos alheios – o espelho narcísico invertido. Vejam em mim a beleza que julgo ter... a beleza é algo que emana – da pessoa, da pintura, da escultura, da poesia... Não está propriamente no corpo, nas cores da tela, na materialidade da escultura, nas letras do alfabeto unidas em vocábulos no poema. Está “fora do corpo”, porque irrompe do mais profundo do ser e atravessa a corporalidade do artista e de quem é tocado pela obra de arte. Assim, sacia o espírito. É imortal. “Se foi no corpo ou fora do corpo, não sei, Deus é quem sabe.”

(*) por Eugenio Santana – Escritor e Jornalista. Autor de livros publicados. Ex-Superintendente de Imprensa no Rio de Janeiro.