sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

DEIXAR FLUIR...




Inundava de perdões o mal-querer e de afagos essa sórdida tendência de apostar na desgraça alheia. Era dom e não dor. Punha em prática sábias lições de vida: pão que se guarda endurece o coração; a cabeça pensa onde os pés pisam; o contrário do medo não é a coragem, é a fé.

Violava todas as regras da civilidade torpe que nos engravatam de cabrestos e rasgava as etiquetas que nos fazem perder horas em cuidados supérfluos.

Arrancava do pulso as algemas do tempo que nos escraviza ao ritmo implacável de minutos e segundos. Era irresponsavelmente feliz, liberto dessa onipotência que recobre de fúria a excessiva fragilidade.

Deixava o corpo flutuar em alturas alucinógenas. Cobria de carícias suas cicatrizes, desvelando histórias e apreendendo, na ponta dos dedos, seu perfil interior. Não recorria ao bisturi das falsas impressões, nem ao espectro da magreza anoréxica.

Bebia do próprio poço e abria o coração para o anjo da faxina atirar pela janela as feridas do coração.

Dobrava os joelhos ao milagre da vida e contemplava o rosto divino na face daqueles que nunca souberam que cosmo e cosmético são gregas palavras que deitam raízes na mesma beleza.

Proclamava o silêncio como ato de profunda subversão. Desconectado do mundo, eliminava da alma todos os ruídos que inquietam e, vazio de si, plenificava-se n’Aquele que o envolvia por dentro e por fora, por cima e por baixo. Suspendia da mente a profusão de imagens e represava no mantra turbilhão de idéias.

Não mais fazia de seu corpo mero adereço estranho ao espírito. Era uma só unidade, onda e partícula, verso e reverso, anima e animus, yin e yang. Recolhia pelas esquinas todos os corpos indesejados para lavá-los antes que se soltassem de seus casulos e alçassem vôo da eterna idade.

Fazia do seu corpo hóstia viva; do seu sangue, vinho de alegria. Ébrio de efusões e dádivas, enlaçava num amplexo cósmico todos os viventes e, no salão brilhante da Via Láctea, valsava até que a música sideral esgotasse a sinfonia escatológica.

(copydesk/fragment by Eugenio Santana, jornalista, escritor, místico Rosacruz, publicitário, Editor, crítico literário, versemaker, self-mad man; da Adesg e do Greenpeace. Livros publicados; prêmios literários em âmbito nacional)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

AZUL




BLUE – Poucas palavras têm uma carga lírica tão forte quanto a palavra “azul”. Basta colocar o adjetivo azul ao lado de um substantivo para que ele se ilumine, cresça em significados: pássaro azul, luz azul, rosazul, cavalo azul, tarde azul. Essa cor imprime o toque divino, infinito, que faz a alma voar pelo céu e pelo mar:
Colocar um toque de poesia,
de magia
é pintar de azul.
É bom deitar a cabeça numa nuvem
e sonhar azul,
como uma asazul
ou uma rosazul
que se abre de boca para o céu.
Os jornais podem contar que um homem matou a amante,
o poeta vem e diz
que seu vestido era de organdi azul.
O poeta é dono de um tinteiro
e grava de azul as peles,
os lábios dos sexos,
deixando estranhas marcas de abismo.
O poeta é dono de uma estrada
por onde anda nu,
atento,
com seu cavalo azul.
Por enquanto o poeta deixou aqui um pingo azul.

(copydesk/fragment by Eugenio Santana)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

SE NEM FREUD RESOLVE, ENTÃO TENTE A POESIA!




Não adianta fugir de seus medos, suas dores, suas fragilidades, suas tristezas. Elas sempre correm juntinho, coladas em você.

Entregue-se, seja apenas um ser humano cheio de dúvidas e certezas, alegrias e aflições. Aproveite e use algo que é igual em todos nós: a capacidade de imaginar, de voar, se entregar. Se nem Freud lhe explica, tente a poesia.

A poesia vai resolver seus problemas existenciais? Provavelmente não.

O próprio pai da Psicanálise, Sigmund Freud, depois de passar a vida debruçado sobre os mistérios do sexo, os grilos na cuca, os gritos do corpo, os sussurros da alma, admitiu que aonde quer que ele fosse ou olhasse um poeta já havia passado por ali.

(Eugenio Santana – copydesk/fragment/releitura)

UM POUCO DE MAR E UM POUCO DE FLORESTA...




Havia os Vazios, Desejos, Ausência imensa, Saudade de algo que lhe faltava. E ela sonhava com coisas longínquas, e as amava: florestas que nunca vira, e pensava que seria bom se, um dia, o mar e a selva se encontrassem e o azul e o verde se misturassem. Ela amava o mar que nela morava, e a selva, ausência, pedaço que lhe faltava. Mas ele também tinha um sentimento triste, vazio, doía-lhe o lugar da Falta. E quando o sol se punha sobre o mar, ele sentia uma nostalgia imensa. Como se a floresta não lhe bastasse, o desejo por algo belo-distante, ausente. E, da sombra verde das árvores, olhava a luz azul do mar, solene no horizonte, brincalhão na areia, e desejava mergulhar nele, e pensava que felicidade é isto: a selva penetrando o mar. Um dia os dois se encontraram, se amaram, a floresta mergulhou no mar, o mar abraçou a floresta, suas sementes se misturaram e uma criança nasceu... E ela tinha no seu corpo um pouco de mar e um pouco de selva...

(Eugenio Santana – fragmento/copidesque)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O AMOR VERDADEIRO É SEMPRE TRÁGICO, EXALTADOR




Nem um carro, nem um transeunte, nem um gato, nem um cão. De vez em quando, nuvem de poeira. Por volta das 6 horas, sombras furtivas começarão a esgueirar-se ao longo das altas casas abandonadas. Sombras dobradas ou torcidas, lutando contra o vento selvagem. Dentro em pouco, tudo voltará a ser deserto de pedra e poeira.
O inverno vale a pena ser vivido. É de um rigor incomparável. Não nos poupa nada, atormenta-nos, julga-nos. Obriga a nos olharmos bem de frente, no espelho, reduzidos à nossa expressão mais simples, ou seja, a nós mesmos, isto é, à angústia.
Os homens que acotovelam as mesas de mármore fingem ver a TV. Silhuetas torcidas se agitam. A locutora sorri para os anjos e anuncia a chuva e o tempo bom. Poderia anunciar o fim do mundo, que os homens não se mexeriam, continuariam assim, como estátuas. São velhos, são nodosos, são oliveiras destacadas da terra. São indiferentes e impassíveis. Invejo-os.
E o autor, bem entendido, na justa medida da minha loucura, se estou louco, da minha angústia, se estou angustiado, do meu delírio, se estou delirante. De todas as maneiras, da minha solidão. Estou só. Assim o quis.
Detesto as multidões.
-- E por que precisa de solidão?
-- Na vida de cada um, chegam um momento e uma idade... Tenho quarenta e seis anos... Em que é necessário determinar a rota, fazer o balanço das nossas forças e das nossas fraquezas, das nossas derrotas e das nossas conquistas. Esse momento chegou, para mim.
-- Mesmo no plano sentimental?
-- Mesmo no plano sentimental. Quanto à alusão, não pense que ela me perturba.
-- Pensa escrever outro livro?
-- Sem dúvida.
-- Um romance?
-- Um romance autobiográfico.
-- Detalhes?
-- Só posso dizer que se intitulará “Os Pessegueiros Florescem no Outono.”
-- Onde pensa refugiar-se?
-- Não sei ainda, provavelmente em Edeia, Pirenópolis, Goiás Velho, São Miguel do Passa Quatro, Silvânia, Pilar de Goiás, Ceres, Orizona, Itapaci...
... A imprensa retira-se. (Setembro de 2011).
Neuroforia, isso não vem no dicionário. Durante três noites, Zoé sumiu. Uma noite voltou tranqüila, um pouco cansada.
-- Acabou a neuroforia.
Mais tarde, bem mais tarde, ela tentou explicar-me. Vou, por meu lado, tentar traduzir Zoé. Digamos que a neuroforia é uma força incoercível, louca, que nasce em nós, cresce e explode. Então, nada nos pode impedir de ir até ao limite de tudo. E mais além, se for possível. Então, a gente luta, bebe e come, faz o amor e toma drogas, fala e fala ainda. Isso pode durar de dez a cinqüenta horas, até que o doente fique exausto. É a fuga para diante, à frente da angústia. É a chance da última chance. É engolir o tempo e engolir o espaço. E negá-lo.
Milhões de homens morrem intatos. Ou seja, pouquíssimos diferentes do que eram ao nascer. Sem terem conhecimento realmente de nada, nem experimentado, nem aprendido. Morrem intatos, sem jamais terem gasto o capital psíquico, a força real, o dinamismo que é dado a cada indivíduo. Um monte de carvão não consumido, que se deixa apodrecer sobre o chão da mina. Esses consumiram a vida.
O amor não existe, eu juro. É hora de dizê-lo, de proclamá-lo por cima dos telhados, de anunciá-lo à trombeta. Ou, melhor, minha cara Zoé, o amor não existe senão para alguns. Eis o segredo. E você, com as suas recordações de pesadelo, não faz parte daqueles a quem foi dado o amor. Você, como milhares, como milhões de outros. Como todas as multidões imensas do planeta, que obedecem a reflexos condicionados. Todos alienados pela religião, pela mídia, pela TV, pelo cinema, pela literatura, a boa e a má, que miam a cada minuto, a cada segundo, o amor, sempre o amor. Não há amor, não há milagre para todos esses, desprovidos, condicionados, que vivem redondamente equivocados.
O amor, o verdadeiro, é sempre trágico, exaltador. É uma sociedade secreta, cuja iniciação é cruel e complexa. É o que viviam Tristão e Isolda, com a espada no centro do leito. É o que perseguia Dom Quixote nas planícies da Mancha, essa caça à sombra, essa busca exaustiva e raramente triunfante.
Donde a necessidade que eu tenho da literatura. É mais fácil e menos perigoso. Estamos tão doentes! A maioria não sabe, mas eu sei.
-- Doente de quê, Sr. Mário?
-- Não da alma, não da consciência, não do cérebro. Não, é demasiado vago. Doente de ternura, de generosidade, solidariedade e do dom de si mesmo. Doente de Deus, talvez, doente de amor sempre. Doente do corpo de todas as mulheres do mundo. Doente do tempo e doente do espaço na busca infrutífera de transcendência, consciência cósmica e uni/versos paralelos; doente das palavras, quando escrevo e não publico, das carícias, quando amo, dos lençóis, quando durmo. Doente da morte, cara doutora.
-- E qual o seu remédio, caro escritor?
Não há remédio, a não ser, sempre e sem parar, a contestação e o protesto. Tem de haver orvalhos e vaga-lumes no jardim que velam todas as noites enquanto os outros dormem e têm pesadelos. Tem de haver quem berre, ao vento, as verdades essenciais, quem despedace e quem destrua, quem ponha tudo em causa, minha bela. E não importa que meio, recomendável ou não. O importante é que deixe marcas.
-- O senhor é um anarquista, Sr. Mário.
-- E a senhorita é uma imbecil!
A caverna tem isto de bom, é confortável e ao abrigo dos outros. Cada qual pode ficar indefinidamente na sua caverna. É, aliás, o que todo mundo faz ou se esforça por fazer. Só eu resolvi sair da minha caverna, e há muito tempo. Ou, mais exatamente, errar de caverna em caverna, sabendo o que elas são, apreciando provisoriamente o seu conforto, mas sem nunca dormir nelas. Sei agora que as sombras não passam de sombras. Sei que lá fora é dia, mas que no interior das cavernas ainda posso representar e me contar histórias. Não sou mais um idiota. Tudo isto para lhe dizer que não existe pessoa dupla de você ou de quem quer seja. Que somos sós e únicos, e que é preciso acomodar-se a esse estado. Conseqüentemente, tenho ao mesmo tempo a tristeza e o prazer de lhe diz er, de lhe afirmar, de lhe jurar que o amor não existe.
Fricciono-me. Sinto-me realmente novo, mudei de pele a neuroforia foi afogada. Volto para o quarto, visto-me. Trouxeram a bandeja com o chá, o doce, as torradas e a manteiga. Sirvo-me, bebo, como, o mundo me pertence. Estou pronto, gentleman bem barbeado e cheirando a lavanda. Zoé guarda a roupa suja na maleta. Termino o meu chá. Zoé pega a maleta, dirige-se para a saída, eu a sigo. Segui-la-ei até ao fim do mundo, e seguirei apenas a ela. Ela acende um cigarro, põe o carro em marcha. – ligue o aquecimento. O navio deixa o porto.
É necessário morrer, quando os rostos já não nos fazem sinais, quando as vozes se tornam incompreensíveis. Então, é uma questão de dignidade. Não se morre quando um ser nos abandonou. Morre-se quando nós mesmos nos abandonamos. Estou aqui, não estou aqui. Não sei nada. Em suma, quero anular-me, mas com todas as garantias possíveis. Quero ter a certeza de que estou desertado. Sôo oco, sou um fantasma. E grito para dentro, como um filósofo-de-bolso: a vida é absurda, eu sou absurdo. Ando às voltas dentro das armadilhas da casa de vidro. Zoé, silenciosa, vigia-me. Assiste impassível à minha agonia, como boa conhecedora. Dêem-me garantias e eu me anulo, fico fora de combate. Silêncio. As vozes cochichadoras, destiladora s de bons conselhos, estão mudas. Cabe a mim arranjar-me, só, sempre só. E recomeçar uma vez mais a análise das razões, a procura das causas.
Não se trata dos meus livros, mas da minha alma. Não me interessa a literatura, não me interessam os meus livros. “Todos os meus livros por um Reino!” O que eu procuro, é um reino. O que eu preciso é fazer um inventário, uma grande faxina. Jogar fora o que estiver demasiado usado, limpar e só guardar o essencial. Voltar ao essencial, ao absoluto, ao definitivo.
Gostaria de ter a meu lado um ser com quem pudesse falar, a quem pudesse comunicar tudo o que vivo, tudo o que experimento. Zoé não basta. Com ela, são sempre monólogos paralelos. E onde está ela? Onde está aquela que viverá comigo todas as aventuras do corpo e do coração?
E também do espírito. Aquela que comigo construirá a alta torre da solidão partilhada?
Finalmente... Luciene. O mesmo sentimento cada vez que a vejo e a mesma impotência para expressar essa espécie de paralisia que atinge. Poderia amá-la até à eternidade, amá-la até morrer, com todas as pisaduras e todas as feridas do amor. Com todas as ternuras do mundo e todos os impulsos que só esperam para brotar, verdadeiros e fortes.
A estrada. Os faróis, os plátanos. Uma luz baça envolve a noite. Talvez vá chover. O silêncio repousado. O da satisfação e da paz. As palavras não significam mais nada. Pulverizaram-se. Recordar. A avareza da Memória. Recordar-se dos momentos, arquivá-los, guardá-los na cabeça... Explodi neste amor. Fiquei reduzido a pó. Mas para ressuscitar, para ressuscitar, enfim. E que tudo agora seja claro e legível. Quero ler-me em livro aberto...
Os plátanos, a estrada, os faróis. A neblina branca, dissimulada... Era para melhor renascer. Ressuscitei... Uma transformação teve lugar quando eu já não esperava nada. Quando eu já pedia demissão... O amor que temos a fazer, a inventar. O império que precisamos edificar. Depressa, muito depressa. Precisamos lutar contra o tempo, agarrá-lo em velocidade. Ele é o inimigo. Um amor, isso existe? Existe, mas em estado bruto. É uma pedra, um objeto. E a gente não sabe o que fazer com essa pedra, embora tudo se possa inventar. É preciso dar um sentido ao amor, uma direção. Animá-lo, iluminá-lo. De outra forma, ele fenece, asfixiado pela sua própria inércia...
Crer na virtude das palavras por si sós. Mas as palavras não têm virtude, a não ser a que se lhes quer dar. E que se lhes dá por impotência, por ociosidade, por covardia. Também é fácil fazer um filho. Supremo álibi para lutar contra o medo e a solidão. E a morte, também. Para existir por procuração. Para enganar. Um menino, isso permite, por instante, julgar-se imortal.
Não mais fingir viver com os outros que fingem viver. Admitir que os meus antigos amores eram falhos, que não passavam de atos de egoísmo e de orgulho. Admitir que aquilo que a que eu chamava de “minha filosofia” nada mais era do que paródia de um pensar rigoroso. Admitir que o que eu escrevi nada mais foi do que o reflexo do carnaval em que vivi. A descrição hábil dessa partida de esconde-esconde de que eu brinco comigo mesmo há quarenta e seis anos, para não me confrontar com a “minha realidade”. Negar-me. Aprender a humildade.
Um par de faróis me ilumina e me fustiga. O carro de Luciene acaba de estacionar ao lado do meu. Fico imóvel, paralisado. Ela me vê. E eu, alucinado, vejo-a descer, vir para mim, inclinar-se para mim, beijar-me. E eu soluço.
-- Luciene, Luciene, meu amor... Os anjos da escuridão... Eles quase me tiveram.

(EUGENIO SANTANA é cronista, contista, poeta, crítico literário, jornalista, publicitário, relações públicas, assessor de comunicação. Foi Superintendente de Imprensa no Rio de Janeiro e é membro efetivo da Academia de Letras do Noroeste de Minas (ALNM), cadeira número 2)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

SABEDORIA METAFÓRICA




Agora sei quem sou. Sou pouco, mas sei muito, porque sei o poder imenso que morava comigo, mas adormecido como o peixe Celacanto no fundo azul e silencioso do oceano e que hoje é como uma árvore plantada bem alta no meio da minha vida.
Agora sei as coisas como são. Sei porque a água escorre serena e porque acalanto é o seu ruído na noite de flor e estrela que se deita no chão da casa nova. Agora sei as coisas poderosas que valem dentro de um homem de chegadas e partidas.
Aprendi contigo, amada. Aprendi com tua beleza, com a maciez de tuas mãos, teus dedos alongados de pétalas de prata, a ternura oceânica do teu olhar, verde de todas as cores e sem nenhum horizonte; com a tua pele fresca e enluarada, a tua infância permanece, sua sabedoria metafórica brilhando distraída no teu rosto-luz.
Grandes coisas simples aprendi contigo, com o teu parentesco com os mitos Greco-romanos, com os girassóis dourados na asa do vento, com as chuvas rápidas de verão e com as linhas fissuradas da minha mão esquerda. Contigo aprendi que o Amor divide mas sobretudo acrescenta, e a cada instante mais aprendo – eterno neófito do planeta-escola – com a tua maneira de andar pela metrópole como se caminhasses de mãos dadas com as fadas, com o teu sabor de erva molhada, com a luz dos teus dentes, tuas delicadezas secretas, a alegria do teu amor maravilhado, e com a tua voz aveludada que sai de teus lábios inesperados como um arco-íris partindo ao meio e unindo os extremos da vida ávida, e mostrando a verdade como laranja partida. Fruta aberta diante dos meus olhos atônitos.

(Copydesk/Fragment By Eugenio Santana, Escritor e Jornalista. Sócio efetivo da UBE-GO/SC – União Brasileira de Escritores e Membro efetivo da ALNM – Academia de Letras do Noroeste de Minas, cadeira 2)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

É HORA DE MUDAR E DE ALÇAR NOVOS VÔOS...




Sinto que esse momento de percepção é uma liberação... Antes, sentia-me preso como se estivesse em um casulo que eu não queria abandonar... que me limitava só ao que era conhecido e, mesmo assim, parece que ficava cada vez mais limitado por medos e preocupações.

Depois me senti livre e aberto a todas as possibilidades... Em um segundo de clareza, o casulo se rompeu e eu voei.

É que as transformações tão necessárias, às vezes, não são muito fáceis e podemos nos apegar ao que deve ser deixado... prolongando o tempo do casulo, retardando o vôo da borboleta... o vôo da liberdade.

A nossa natureza é sábia... e quando estamos prontos para dar mais um passo adiante, onde podemos ter uma visão mais ampla da nossa realidade, isso se dá suavemente, quando não resistimos ao fluxo natural da vida... ou nem tanto... quando resistimos e tentamos segurar a todo custo o que já passou.

Nesses casos é quando o Universo costuma puxar nosso tapete... e alguma coisa inesperada e aparentemente ruim nos chama atenção para as transformações necessárias.

Ficamos tão acostumados com determinados "casulos" que já não nos cabem mais que, mesmo apertados e desconfortáveis, preferimos ficar ali a arriscar um mergulho no desconhecido.

Mesmo sem perspectiva nenhuma, existem situações nas nossas vidas que nos prendem até o ponto em que algo acontece para nos mostrar que é realmente hora de mudar e de alçar novos vôos.

Saber fluir com os ciclos faz nossa vida mais leve e sem esforço... mas, quase sempre nos agarramos às beiradas tentando segurar o tempo... as coisas... as pessoas... e nem percebemos que a vida passa e nós ficamos estagnados e presos ao que passou.

Quando mudamos de ciclo é como se chegássemos a um patamar um pouco acima de onde estávamos... na subida da montanha... e dali nossa vista alcança um pouco mais longe e podemos ver com mais clareza as coisas... que eram verdade, até então, agora... vista desse ponto, não são mais.

Aprendemos que as verdades que nos alimentam em determinados momentos não são as que nos alimentam em outros... nessa realidade de impermanência, tudo vai se transformando, na medida em que nos abrimos para essas transformações.

Podemos nos prender aos casulos que nos servem de morada... e de caminho... durante nossa jornada aqui... mas o casulo não é uma morada permanente e é pura perda de tempo e de energia acreditarmos que é...

Deixar ir o que passou, sem julgamentos e com Amor, por entender que era o aprendizado que precisávamos naquela hora, mas que já cumpriu seu papel... nos deixa livres para mergulhar por inteiro nas infinitas possibilidades que se apresentam quando soltamos as amarras do passado e nos abrimos para o risco e a maravilha que é viver sem garantias... no presente.

(copydesk/fragment By Eugenio Santana - Místico Rosacruz, Escritor, Jornalista, Editor, Crítico literário, Relações públicas, Assessor de Comunicação, Redator publicitário)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

MONÓLOGO DE ÍCARO




Com que então pertenço aos céus?
Não fosse assim, por que é que os céus
Me chamando, e à minha mente, mais alto.
Sempre mais alto, sempre mais acima,
Me chamando sempre para o máximo,
Para alturas que homem algum imagina?
Algo me chama lá em cima, para cima,
Cada vez mais perto da faísca do sol.
Por que me imploram, me aprovam, me invocam
Que eu ame o que existe lá embaixo
Se vissem o que, daqui de cima, vejo –
Embora o fim nunca pudesse ser o amor,
E, se fosse, poderia eu algum dia
Pertencer aos céus?
Será que o azul do céu não passa de um sonho?
Seria esse azul uma invenção da terra, amada minha,
Apenas para punir um momento de puro desvario
De uma Asa de cera frágil-efêmera?

(Copydesk/Fragment By Eugenio Santana – escritor , jornalista, poeta)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

RIO DO TEMPO




Tristeza é parte da vida. Ela é a reação natural da alma diante da perda de algo que se ama. O mundo luminoso e claro – mas há algo, uma perda, que faz tudo ficar triste.
O crepúsculo é uma metáfora do que é a vida: a beleza efêmera das cores que vão mergulhando no escuro da noite.

A alma é um cenário. Por vezes, ela é como uma manhã iluminada e cheia de frescor, inundada de alegria. Por vezes ela é como um pôr de sol, triste e nostálgico. A vida é assim. Mas, se é manhã brilhante o tempo todo, alguma coisa está errada.

Tristeza é preciso. A tristeza torna as pessoas mais ternas. Se for crepúsculo o tempo todo, alguma coisa não está bem. Alegria é preciso. Alegria é a chama que dá vontade de viver.

Eu acho que essa tristeza crepuscular é mais que uma perturbação psicológica. Acho que ela tem a ver com a sensibilidade perante a dimensão trágica da vida. A vida é trágica porque tudo o que a gente ama vai mergulhando no rio do tempo.
“Tudo flui; nada permanece.” A vida é feita de perdas. Fiquei comovido ao folhear o álbum de fotografias de minha família. Aquele tempo passou. Aquela alegria mergulhou no rio do tempo. Não volta mais. Há, assim, um trágico que está ligado a “eventos trágicos”. Está ligado à realidade da própria vida. Tudo o que amamos, tudo o que é belo, passa.

Mas precisamente desse sentimento que surge uma coisa maravilhosa, motivo de riqueza espiritual: a arte. Os artistas são feiticeiros que tentam paralisar o crepúsculo.

Eternizar o efêmero. Todas as vezes que ouço aquela música ou leio aquele poema, o passado ressurge. A beleza da arte nasce da tristeza. Se não houvesse tristeza, não haveria arte. Diz Jobim: “Assim como o poeta só é grande se sofrer...” Certo. Sem tristeza não haveria Cecília, Adélia, Pessoa, Hilda Hilst, Chico Buarque, Drummond, Beethoven, Chopin, Debussy. A obra de arte ou é para exprimir ou para curar o sofrimento.

Mas há um limite. É necessário que a tristeza seja temperada com alegria. Tristeza, só, é muito perigoso. As pessoas começam a desejar morrer. Essa é a razão por que os deprimidos querem dormir o tempo todo. O dormir é uma morte reversível.

Quando a gente está com dor de cabeça, toma tylenol sem vergonha alguma. Quando a gente está com dor de alma, tristeza, algum remédio é preciso – para não querer morrer, para voltar a ter alegria.

(Eugenio Santana é jornalista, escritor, poeta, crítico literário, editor, publicitário e de 2009 a 2011 foi Superintendente de Imprensa no Rio de Janeiro)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

MUITAS MULHERES PASSARAM PELA MINHA VIDA...




MUITAS MULHERES PASSARAM PELA MINHA VIDA, mas em cada uma delas faltava alguma coisa, ou alguma coisa estava demais. Então, um dia, eu a conheci. Era linda, inteligente, generosa e bem-educada. Tínhamos tudo em comum. Na verdade, ela era PERFEITA. Não fiquei com ela para sempre - embora chegamos a nos casar - porque infelizmente, parece que ela estava à procura do homem PERFEITO.

QUASE TODOS NÓS queremos encontrar a perfeição fora de nós mesmos. Criamos em nossa cabeça a imagem ideal da mulher ou do homem que buscamos, projetamos essa imagem em cima da namorada ou namorado, da esposa ou do marido, e queremos que ela ou ele corresponda a essa imagem.
Ao alimentar essa expectativa utópica, perdemos a capacidade de entender e gostar do ser humano "real" ao qual nos ligamos. E, muitas vezes, como ela ou ele não podem corresponder a essa expectativa - pelo simples fato de que ela é produto da nossa idealização e dos nossos desejos fantasiosos - acabamos frustrados, por rejeitar a pessoa com quem nos relacionamos, quase sempre sem ter sequer "conhecido" essa pessoa.

A INSTITUIÇÃO DO CASAMENTO concebido nos moldes tradicionais vive uma crise de proporções avassaladoras. No entanto, segundo outros dados, obtidos a partir dos consultórios de psicoterapia, o maior desejo das pessoas continua a ser o encontro e a união amorosa verdadeira com alguém. Como este desejo não admite contestação, porque nasce das profundezas da alma humana e dele depende a própria sobrevivência da espécie, conclui-se que o problema não está na união das pessoas em si mesma, e sim na forma como essa união é entendida e vivida.

EM TODO CASAMENTO, de vez em quando aflora a pergunta: "Afinal, o que estou fazendo aqui? Será que todo esse esforço realmente vale a pena? Por que continuar, se o encanto inicial já murchou e se agora vivemos a machucar um ao outro?" Tristes questões, diariamente formuladas por milhões de malcasadas e malcasados. Poucos são os que conseguem boas respostas para ela.

INDICADOR CONFIÁVEL de que estabelecemos uma conexão pelo coração é a calorosa sensação de plenitude que sentimos na presença da outra pessoa. A afinidade que torna possível a relação consciente diz respeito à atração especial que provamos em relação a determinadas pessoas com as quais compartilhamos uma ressonância profunda e indefinível. Neste caso, o que se estabelece é uma "conexão pela alma".
A CONEXÃO PELA ALMA é a ressonância entre duas pessoas que percebem a beleza essencial da natureza individual uma da outra, a beleza que existe por trás das suas fachadas, e isso as tornam capazes de se conectar num nível profundo. Uma sagrada aliança se estabelece entre as duas pessoas, e o propósito dela é ajudar ambos os parceiros a descobrir e realizar seus potenciais mais profundos.

ALGUÉM QUE NOS AMA muitas vezes é mais capaz de ver o potencial de nossa alma do que nós mesmos. Quando isso ocorre, tem um efeito catalisador: estimula e encoraja aquelas partes adormecidas ou pouco desenvolvidas de nós mesmos a desabrochar e se expressar.

DEVE-SE SEM DÚVIDA LUTAR com todas as forças para fazer com que nossos casamentos e nossas relações se transformem em conexões pelo coração e conexões pela alma, de modo a que seu propósito espiritual possa ser cumprido. Mas, por outro lado, deve-se ter também o discernimento e a coragem de perceber e aceitar quando isso não é possível. Qualquer relação não deve ser um eterno mar de conflito e sofrimento. E o bom senso deve prevalecer quando se percebe que se está, afinal, dando "murros em ponta de faca", desgastando-se inutilmente. Conexão espiritual verdadeira entre duas pessoas só é possível quando "ambas as partes" a desejam e batalham por ela.

(Por EUGENIO SANTANA, FRC – Jornalista, Escritor, Crítico literário, Publicitário, Editor; é ocupante desde 18 de outubro de 1997 da cadeira número 2 da ALNM – Academia de Letras do Noroeste de Minas. Ex-Superintendente de Imprensa no Rio de Janeiro)

A MÁSCARA DA INSENSIBILIDADE




Será que é possível não sofrer junto com o outro e ainda assim ajudar e não ser insensível? É claro que sim.

A insensibilidade é uma capa de proteção que as pessoas usam para não ter que lidar com os sentimentos incômodos de pena, culpa e tristeza ao ver o outro sofrer. Assim, as pessoas começam a ficar frias para não sofrer junto com os outros. Quem sente compaixão, não precisa da capa da insensibilidade, pois já está em paz. Ficar em paz é bem diferente de ser insensível. O insensível é frio, às vezes é grosseiro e arrogante e talvez não faça nada para ajudar o próximo.

A pessoa que está no estado da compaixão reconhece o sofrimento do outro, tem um olhar amoroso, mas não sofre junto. E se estiver a seu alcance, fará o que for possível para ajudar e, caso não seja possível, ficará em paz compreendendo profundamente que o sofrimento é uma parte do aprendizado de cada um.

Imagine um médico que, na emergência de um hospital, recebe uma criança como paciente, acidentada em estado grave, que vem sendo trazida pelos seus pais em desespero. O ideal é que ele mantenha a serenidade para que possa ajudar a criança da melhor forma possível. Nesse estado de serenidade, ele pode ser ao mesmo tempo atencioso com a família e enérgico para tomar as providências que tem que ser tomadas. Quanto mais em paz ele se mantiver, melhor. Imagine se ele começar a sofrer junto com os pais dessa criança! Provavelmente, não terá condições de prestar um bom atendimento. Sua saúde será afetada. E ele acabará também levando tristeza para casa, causando sofrimento para a sua família.

Ao ficar em paz, esse médico pode ao mesmo tempo manter um olhar amoroso sobre essa família. A junção desses dois sentimentos é o que define a compaixão com maior propriedade no sentido mais profundo da palavra: ficar em paz ao ver o sofrimento de alguém e ao mesmo tempo em que se mantém um olhar amoroso.

Muitos médicos, por não conseguirem lidar com seu próprio sofrimento ao ver o sofrimento do outro, acabam por adotar uma armadura de insensibilidade e alguns tratam mal seus pacientes e familiares dos mesmos. Podem parecer frios, arrogantes, distantes, mas, na verdade, é um mecanismo de defesa para não entrar em contato com a tristeza, pena, impotência. Essa capa esconde uma grande fragilidade.

(Copydesk/Fragment By Eugenio Santana, jornalista, escritor)