terça-feira, 30 de abril de 2013

O HOMEM DE CHEGADAS E PARTIDAS (*)

O HOMEM DE CHEGADAS E PARTIDAS – Aprendi desde cedo a não sofrer com partidas. Daí substituir o medo de perder tantas pessoas queridas pelo rosto impassível que exigiam de mim. Daí porque aprendi desde cedo a não sofrer com as partidas. É que eu sou um guerreiro efêmero de uma causa quase infinita no homem: creio ter como marca de alma senão o sonho perfeito, a melhor UTOPIA possível. É que eu sou um homem fugaz de expectativas breves e de moral elevada e uns poucos valores absolutos. Por isso as partidas não me assustam e jamais me assustaram. Por meio delas galvanizo a essência do meu canto. Nenhuma pessoa amada deve se preocupar comigo: posso viver normalmente mesmo com tantas partidas, algumas ganhas, a maioria perdida. (*) EUGENIO SANTANA é Jornalista MTb 1319, escritor, consultor, ensaísta, copidesque, publicitário, relações públicas. Autor de cinco livros publicados. É membro efetivo da ALNM – Academia de Letras do Noroeste de Minas. Sócio da UBE-GO/SC; Professor de Português e Literatura, anos 80, ”Colégio Santa Rosa”, Jaraguá, GO. Ator de teatro, anos 80, Anápolis, GO. Integrante, anos 90, do “Grupo Zaragata”, de teatro e literatura, Joinville, SC. Autodidata. Self-made man. Superintendente de Jornalismo, Rio de Janeiro, RJ (2009/2011)

segunda-feira, 29 de abril de 2013

REFLEXÕES DE UM CÉREBRO GULOSO E ÁVIDO (*)

O AUTOR inglês Anthony Storr, morto em 2011, era um médico apaixonado por artes, versado em psicanálise e biologia evolutiva e membro da Real Academia de Psiquiatria e da Real Sociedade de Literatura. Investiga em seu último livro, “A DINÂMICA DA CRIAÇÃO”, ensaio que estimula e move a criatividade humana por meio da análise da biografia de alguns gênios e de evidências que lhe permitem defender que a vontade e a necessidade de criar (seja na arte, seja na ciência) são reflexos de um cérebro guloso por informações e ávido por resolver dilemas internos. O especialista parte de uma crítica a Sigmund Freud, que considerava as aspirações e o trabalho dos artistas mera utopia, forma de fuga da realidade ou subliminar traumas da infância e insatisfações sexuais. Storr desmonta esse reducionismo argumentando que muitas mentes brilhantes foram bem casadas e amadas e que “foi com sua criatividade, tanto na arte como na ciência, que o homem sobreviveu e alcançou tanta coisa”. A partir disso, ele se volta a analisar perfis psicológicos que favorecem o nascimento de um gênio. Pessoas esquizóides, por exemplo, são aquelas mais isoladas do contato social e que recorrem a um alto grau de abstração para dar ordem ao seu mundo interno. Quem foi assim? Einstein e Newton, os homens que revolucionaram a Física. Outros perfis, como o depressivo (Michelangelo e Balzac) e o obsessivo (Rossini), são analisados, apontando que características herdadas da infância produzem cérebros inquietos capazes de parir obras extraordinárias. Mas Storr não fica só na cabeça dos gênios. Voltando à biologia, postula a hipótese de que o motor da criatividade do homem é construído pela sua infância prolongada, período em que o ser humano vive insatisfeito pela sua falta de compreensão e independência – nenhum outro animal tem uma infância tão longa quanto a nossa. Esse germe de descontentamento perpetua-se em nossa mente pela vida inteira e só pode ser apaziguado por meio de soluções simbólicas: brincar, jogar, apreciar obras de arte e, claro, criar. Em alguns, essa necessidade é mais pungente, de maneira que ela faz brotar ou perseguir idéias e concepções originais. O psiquiatra faz questão de lembrar, no entanto, que, embora a loucura, ou melhor, as neuroses espreitam o gênio, só se tornam grandes criadores aqueles que mantêm um pé na realidade. (*) EUGENIO SANTANA é Jornalista MTb 1319, escritor, consultor, ensaísta, copidesque, publicitário, relações públicas. Autor de cinco livros publicados. É membro efetivo da ALNM – Academia de Letras do Noroeste de Minas. Sócio da UBE-GO/SC; Professor de Português e Literatura, anos 80, ”Colégio Santa Rosa”, Jaraguá, GO. Ator de teatro, anos 80, Anápolis, GO. Integrante, anos 90, do “Grupo Zaragata”, de teatro e literatura, Joinville, SC. Autodidata. Self-made man. Superintendente de Jornalismo, Rio de Janeiro, RJ (2009/2011)

sexta-feira, 26 de abril de 2013

O VERDADEIRO SENTIDO DO ÓCIO CRIATIVO (*)

Hoje, o emprego exige a diluição das fronteiras entre vida para o trabalho e o tempo domiciliar, criando-se assim indivíduos dedicados exaustivamente à empresa. O comportamento workaholic é cada vez mais aceito e considerado normal. As pessoas entregam suas vidas às empresas e muitas vezes viram dependentes do trabalho, por ter perdido outros sentidos para a vida. O tempo livre, industrializado e programado, cria indivíduos apáticos e despolitizados, que acreditam neste tempo como um “presente”, uma recompensa e criam a consciência da necessidade de trabalhar mais para usufruir de tais momentos. “Na Atenas de Péricles havia quase mais feriado que dias úteis”, afirma o sociólogo italiano Domenico de Masi em sua obra “O futuro do trabalho”. Nela, de Masi explica detalhadamente todas as celebrações, cultos e concursos líricos e musicais daquela civilização grega antiga. Mas completa: “Tratava-se de uma reflexão alegre e coral, de cujo húmus se originou uma das maiores civilizações dos últimos tempos. Tratava-se do ócio elevado à condição de arte”. No seu estudo sobre o Ócio Criativo, de Masi diz que a sociedade pós-industrial precisa buscar três elementos para alcançar tal condição: comércio, estudo e raciocínio lógico. Assim, “segundo ele, para a atividade criativa, estudo, trabalho e tempo livre precisam se confundir.”... o homem, tendo transferido às máquinas o trabalho cansativo, enfadonho, nocivo e banal, poderá se dar ao luxo de atividades criativas em que estudo, trabalho e tempo livre finalmente conviverão”. O que ocorre hoje, no entanto, é que os trabalhadores, em raros momentos de descanso, o desfrutam carregado de culpa, quando, até por essa culpa, não levam trabalho para a casa nos finais de semana e períodos que não estão na empresa ou no escritório. As férias e períodos de feriado para os trabalhadores da sociedade pós-moderna, segundo de Masi, representam uma “improdutividade ocupacional” ao qual os trabalhadores são forçados. (*) EUGENIO SANTANA é Jornalista MTb 1319, escritor, consultor, ensaísta, copidesque, publicitário, relações públicas. Autor de cinco livros publicados. É membro efetivo da ALNM – Academia de Letras do Noroeste de Minas. Sócio da UBE-GO/SC; Professor de Português e Literatura, anos 80, ”Colégio Santa Rosa”, Jaraguá, GO. Ator de teatro, anos 80, Anápolis, GO. Integrante, anos 90, do “Grupo Zaragata”, de teatro e literatura, Joinville, SC. Autodidata. Self-made man. Superintendente de Jornalismo, Rio de Janeiro (2009/2011)

segunda-feira, 22 de abril de 2013

VIVER SOZINHO OU ACOMPANHADO? (*)

VIVER SOZINHO OU ACOMPANHADO? Nem sempre é bom viver em casal. É bem verdade que estar só, historicamente, nunca foi visto com bons olhos pela sociedade. Acredito mesmo que muitas pessoas não conseguem conviver bem com a solidão. Muita gente gosta de viver só, trabalha bem com a possibilidade da solidão e até prefere, principalmente em comparação a um relacionamento vazio e desestimulante, como podemos observar cotidianamente. Mesmo o amor a dois deve ser solitário, para que seja preservada a individualidade de cada um, no mínimo. É para se pensar e refletir. Maktub! (*) EUGENIO SANTANA é Jornalista MTb 1319, escritor, consultor, ensaísta, copidesque, publicitário, relações públicas. Autor de cinco livros publicados. É membro efetivo da ALNM – Academia de Letras do Noroeste de Minas. Sócio da UBE-GO/SC; Professor de Português e Literatura, anos 80, ”Colégio Santa Rosa”, Jaraguá, GO. Ator de teatro, anos 80, Anápolis, GO. Integrante, anos 90, do “Grupo Zaragata”, de teatro e literatura, Joinville, SC. Autodidata. Self-made man. Superintendente de Jornalismo, Rio de Janeiro (2009/2011)

CRUELDADE (*)

CRUELDADE – Qual crime é mais grave: desviar fortunas do tesouro público, impedindo o tratamento de doentes, a educação de crianças, a criação de empregos – ou o estupro? Essa questão não é fácil. Porque o caráter mau de um ato não está só nos danos que causa, mas no modo como o criminoso enuncia sua humanidade. Um corrupto ou um sonegador podem ser pessoalmente carinhosos e até caridosos. Não os defendo, mas não há experiência pior que a ausência total de compaixão. Compaixão quer dizer "sentir com”: sentir com o outro a dor ou o sofrimento (paixão, pathos) pelo qual ele passa. A maior contribuição de Jean-Jacques Rousseau à Filosofia foi pôr a compaixão, ou piedade, no centro da condição humana. Dizia ele que o homem sente uma “repugnância inata ao ver sofrer o seu próximo”. Espontaneamente, sofremos com alguém que padece. É o laço mais fundo que temos com os outros. O que tem isso a ver com os dois tipos de crimes de que falei: o que é terrível por seus efeitos, o que é horrível por seu modo de ser? A piedade faz que não suportemos infligir dor ao outro. Mas, para isso, precisamos ver o outro, estar em contato com ele. (*) EUGENIO SANTANA é Jornalista MTb 1319, escritor, consultor, ensaísta, copidesque, publicitário, relações públicas. Autor de cinco livros publicados. É membro efetivo da ALNM – Academia de Letras do Noroeste de Minas. Sócio da UBE-GO/SC; Professor de Português e Literatura, anos 80, ”Colégio Santa Rosa”, Jaraguá, GO. Ator de teatro, anos 80, Anápolis, GO. Integrante, anos 90, do “Grupo Zaragata”, de teatro e literatura, Joinville, SC. Autodidata. Self-made man. Superintendente de Jornalismo, Rio de Janeiro (2009/2011)

terça-feira, 9 de abril de 2013

PARA SEMPRE ARTHUR RIMBAUD! (*)

RIMBAUD está vivo. Rimbaud é um fenômeno literário que não morrerá em nossa memória. Rimbaud é um marco zero na história da Literatura. Sua radicalidade, que o levou à renúncia e ao silêncio, merece um tributo especial e uma reflexão permanente. Os poetas e os escritores do século XX, os surrealistas, os beatniks, os hippies, os jovens rebeldes – todos lhe são devedores. SULCOS – À direita a aurora de verão desperta as folhas, os vapores, e os rumores deste meandro do parque, e as vertentes da esquerda mantêm em suas sombras violáceas, os mil velozes sulcos da úmida senda. Desfile de encantamentos. De fato: carros carregados de animais de madeira dourada, de mastros e telas pintadas de cores mescladas, no grande galope de vinte cavalos circenses jaspeados, e as crianças e os homens, nos mais surpreendentes animais montados; - vinte veículos, floridos e enfeitados como as carruagens antigas ou de contos, abarrotadas de crianças adornadas para uma pastoral suburbana; - e até mesmo, os ataúdes sob seus noturnos dosséis, erguendo os penachos de ébano, desfilando ao trote de grandes éguas azuis e negras. Eu teria gostado de mostrar às crianças Botos de ouro, peixes cantantes, polvos. Escamas de flores ritmavam minhas danças, Dos ventos tive asas e momentos de vôos. Livre,ofegante, cavalgado por neblinas, Eu que furava o muro dos céus avermelhados, Que traz o que seria delícia dos poetas Os liquens do sol e fungos celestiais; Vi arquipélagos siderais e ilhas Cujos céus delirantes abriam-se ao sonho. Nessas noites sem fundo é que dormes e exilas Milhão de aves de ouro, o futuro vigor? Mas chega, chorei demais. Auroras não têm graça, Toda lua é atroz e todo sol amargo; O amor me encheu de torpores agridoces; Que minha quilha estoure, que me faça ao mar! (copydesk/fragment by Eugenio Santana – Escritor, jornalista, ensaísta literário)